domingo, 11 de abril de 2021

A qualificação mais importante de um astrólogo

Ao longo dos tratados clássicos de jyotiṣa encontramos menções diversas das qualificações necessárias para a prática dessa arte. Porém, se formos resumir o que é realmente importante para ser um jyotiṣī, a resposta é satyaṁ (veracidade). A veracidade é uma qualidade própria dos brāhmaṇas, aqueles que se inclinam ao conhecimento e à pureza. O grande Chandulal S. Patel, certa vez, ao ser indagado sobre o que um jyotiṣī deveria fazer para ser bem-sucedido em suas predições, respondeu apenas o seguinte: “Falar sempre a verdade”.

Parece simples, mas não é. Pois facilmente podemos comprometer a verdade visando os nossos próprios interesses. Porém, um brāhmaṇa é sempre veraz, mesmo que isso desagrade a muitos e o torne impopular. Dinheiro, fama e seguidores, para um brāhmaṇa não tem valor algum se envolvem comprometer a verdade. Isso é o que faz dele um indivíduo de essência sincera e idealista.

Politicagem, promoção pessoal, utilização de meios artificiais para obter reconhecimento, dinheiro e seguidores, assim como manipulação são coisas que um brāhmaṇa não se dedica a realizar. Logo, como ele ganha a vida? Simplesmente se devotando com afinco ao estudo de uma disciplina intelectual e compartilhando o conhecimento que possui, sem estratégias de marketing, acordos e coisas similares. Se o conhecimento que ele possui é realmente sólido, as pessoas naturalmente irão lhe procurar. Não há necessidade de recorrer a métodos comerciais de divulgação pessoal. A única coisa que o brāhmaṇa precisa é de um meio ou espaço no qual ele poderá expor o seu conhecimento, que sendo refulgente por si só, naturalmente atrairá aqueles que buscam esclarecimento.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Júpiter em aquário age como se estivesse exaltado (em câncer)?

Já que Júpiter finalmente ingressou aquário e há pessoas em dúvida sobre os resultados desse posicionamento, vou aproveitar para esclarecer a afirmação controversa de Varāhamihira (século V) que é causa de tais dúvidas. Basicamente, ele diz o seguinte:

"Júpiter em aquário produz os mesmos resultados de Júpiter em câncer. – Bṛhat Jātaka"

Ou seja, ele afirma que Júpiter em aquário age como exaltado. Mas veja agora o que o próprio Varāhamihira diz sobre Júpiter em câncer:

"...será abençoado com joias, filhos, riqueza, esposa, poder, inteligência e confortos. – Bṛhat Jātaka"

Em tese, seria isso que Júpiter em aquário ofereceria, mas o problema é que na prática os resultados de um Júpiter em câncer são muito distintos dos de Júpiter em aquário, o que fica ainda mais claro quando comparamos os resultados desses em ângulos. Mas nem será o caso de fazer isso aqui. Vamos apenas comparar o que outros autores dizem sobre ambos os posicionamentos, a começar por Júpiter em câncer:

"Aquele que possui Júpiter em câncer será um erudito, belo, alguém altamente instruído, caridoso, de uma natureza benevolente, muito forte, famoso, possuirá grãos em abundancia e riquezas. Além disso, será veraz e dado a realizar penitências, terá filhos longevos, será honrado por todos, um rei, terá uma profissão distinta e será apegado a seus amigos. –Sārāvalī"

“O indivíduo com Júpiter em câncer adquirirá uma grande variedade de riquezas e seu trabalho progredirá bem. Ele será bem versado nos śāstras, assim como em diferentes artes, se mostrará um orador astuto, talentoso e possuirá cavalos e elefantes. – Mānsagari"

"Aquele que nasce com Júpiter em câncer será sábio e terá muitos filhos. – Jātaka-pārijāta"

Já em relação aos resultados de Júpiter em aquário, os autores posteriores à Varāhamihira dizem o seguinte:

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Uma análise do mapa do Ayrton Senna


A pedido, vou apresentar aqui o que vejo sobre a partida precoce do Ayrton Senna, assim como também sobre o seu talento e renome. Começando pela questão da longevidade, o primeiro ponto é que ele tem dois benéficos, a Lua e Júpiter, na doze, um dusthāna. Isso por si só já um indicativo negativo para a longevidade, mas que deve ser relacionado a outros pontos. 

Como o regente do ascendente dele, Saturno, também ocupa a doze e ainda aflige os benéficos, temos um testemunho ainda mais negativo para a longevidade. Os senhores de um, oito e dez também não estão posicionados de forma ideal, como é demandado em um método de análise de longevidade citado na literatura. Isso é agravado pelo fato do Ayrton ter apenas maléficos ocupando kendras e koṇas. No ascendente ele tem Marte, enquanto na nove ele tem Rāhu.

Em relação ao Marte, o fato dele estar forte em um ângulo é um testemunho comum para mortes violentas, rápidas, que envolvem fogo, acidentes, etc., como já testemunhei em muitos casos, além de ser também algo pontuado na literatura clássica. Mas há algo mais: para o ascendente do Ayrton, Marte é o bādhakeśa, além de ser, nesse caso, dispositor de Gulikā. Pulippani cita em seu Pulippani Jothidam que o bādhakeśa em ângulo é especialmente indesejável, ao passo que Vaidyānatha cita como indesejável ter Gulikā relacionado ao bādhaka ou ao bādhakeśa, algo que ocorre nesse caso e só reforçou o testemunho negativo de seu Marte angular. Como Marte olha a oitava casa, deixa evidente que sua morte estaria relacionada a algo da natureza do mesmo: um acidente.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Um estudo da daśā atual de Michael Schumacher

 

Estava estudando o mapa de Michael Schumacher, tentando entender o que levou ele a ficar na situação que se encontra agora, completamente paralisado. Me surpreendi com o que encontrei. Ele está vivendo a daśā de Mercúrio desde 2008, sendo esse um māraka que forma uma conjunção estreita com Gulikā no bādhaka-sthana. Mercúrio ainda está recebendo o olhar de Júpiter, que é regente de oito e do próprio drekkāṇa da oito. Vaidyanātha chega a citar no Jātaka pārījāta que quando Gulikā ou o regente do drekkāṇa da oito se relaciona com o bādhaka ou com o bādhakeśa, isso gera efeitos muito adversos, o que inclui naturalmente doenças, acidentes e situações de aprisionamento.

Schumacher não só tem a configuração citada por Vaidyanātha, como ela ainda envolve um māraka. A partir da Lua, Mercúrio é o seu dispositor colocado na oito, outra indicação forte para um evento desastroso. Também é importante notar que Mercúrio ainda é dispositor de Júpiter, o regente de oito, e está sob o olhar de Marte, um māraka, senhor de doze (privações) e significador natural de acidentes.

Mas uma coisa que me chamou bastante a atenção também é o fato dele ter a conjunção de Saturno e Rāhu, ainda que com uma orbe folgada. Essa conjunção produz problemas de natureza vāta e, embora ele tenha se acidentado, isso comprometeu o seu movimento e fala, duas funções vāta. A conjunção de Saturno e Rāhu ainda está situada exatamente a meio caminho da oposição do Sol e da Lua, o que tenho certeza, é outro fator decisivo que influenciou o seu quadro atual. Isso ainda é reforçado pelo fato de Saturno ser o bādhakeśa, que além de conjunto a Rāhu, está sob influência do regente de oito e é o dispositor de Gulikā. Ou seja, temos praticamente a mesma indicação do bādhaka-sthana se repetindo com o bādhakeśa.

 

oṁ tat sat

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O regente do ano também é considerado no jyotiṣa?

Todos os anos vejo as pessoas citarem: “Esse é o ano do Sol”, “Ah, agora estamos sob a regência de Saturno”, “Agora com o ano da Lua, as pessoas ficarão mais sensíveis”, e coisas do tipo. Alguns até chegam a me perguntar se no jyotiṣa isso também é válido, pois essas regências são citadas pelos astrólogos modernos, em geral.

A verdade é que no jyotiṣa o conceito de regente do ano existe, sim. Bṛhat saṁhitā e Kālaprakaśika são dois textos clássicos que citam essa ideia, porém, seus métodos são divergentes e poucos astrólogos levam isso realmente a sério, pois é de natureza muito generalista.

A melhor maneira de se determinar o regente do ano, seria tomando por referência algo mais específico, como um país ou um indivíduo. No caso dos países, o método pode variar e ser bem complicado, mas no caso dos indivíduos, há um método simples e eficiente. Em Jaimini jyotiṣa eles denominam o senhor do ano como sendo o varṣācharya (vide Jātaka sāra saṅgraha), em tājika ele é inferido por meio do muntha, enquanto em Parāśara ele seria determinado por meio da técnica de sudarṣana-chakra.

Há algumas diferenças entre esses métodos, porém, o que julgo mais eficiente é o de Jaimini (o qual não difere em essência do método de Parāśara), que é, inclusive, o mesmo utilizado pela maior parte dos astrólogos helenísticos e medievais. Nesse método, o senhor do ano seria o senhor do signo destacado pela progressão anual, onde a cada ano o ascendente move um signo. Logo, de 0-1 ano de idade o senhor do ano é o senhor do ascendente, de 1-2 é o da casa dois, de 2-3 é o da casa três, e assim por diante.

Uma forma simples de calcular o varṣācharya é tomar a idade do indivíduo, subtrair múltiplos de 12 e acrescentar 1 ao que resta. Por exemplo, se alguém está com 32 anos, subtraindo múltiplos de 12 teremos 32 - 24 = 8, acrescentando +1 teremos 9, logo o senhor do ano seria, nesse caso, o senhor da nona casa. 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Quais são afinal as diferenças entre Parāśara e Jaimini?

Em vista das dúvidas que algumas pessoas acabam tendo quando digo que misturar Parāśara e Jaimini não dá certo nem é recomendado na literatura, eu decidi escrever esse esclarecimento. No caso, é importante entender o que cada um desses dois métodos de jyotiṣa tem como característico, antes de falarmos sobre as misturas.

Parāśarī jyotiṣa é, em outras palavras o método yavana (descrito no Yavana jātaka, Bṛhat jātaka, Sārāvalī, Horā makaranda, etc.) reformado. O que lhe distingue são os seguintes elementos:

Graha-dṛṣṭis olhares dos grahas.

Udu-daśās daśās calculadas a partir do nakṣatra ocupado por Chandra (Lua), como é o caso da viṁśottarī, aṣṭottarī, kālachakra daśā, etc.

Upagrahas – grahas secundários, como Gulikā, Dhūma, Upaketu, etc.

Yogas gaja kesari, śaṅkhā, kāhala, Lakṣmī, Sarasvatī yoga, etc.

Ṣaḍ-bala cálculo de forças.

Aṣṭakāvarga cálculo aplicado tanto a análise natal quanto também de trânsitos e daśās.

Natureza funcional – análise da natureza dos grahas conforme a regência que adquirem.

Āyurdāya o cálculo de longevidade em Parāśara é baseado em uma técnica envolvendo os regentes de um, oito e dez, assim como também nos métodos aṁśāyu, nisargāyu, etc.

Em suma, isso é Parāśarī jyotiṣa, pois é exatamente assim que Phaladīpikā, Jātaka pārījāta, Jātaka deśa marga, Sarvārtha chintāmaṇi e outros textos ligados a essa tradição representam o método Parāśarī.

Agora, em relação a Jaimini, o que distingue o método são os seguintes elementos:

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Um esclarecimento sobre os argalas

O conceito dos argalas é um dos menos explorados pelos astrólogos em geral. Além disso, há muitos equívocos quanto a sua utilização. Visando esclarecer isso, decidi escrever esse artigo, mas que já alerto, se destina a estudantes mais avançados ou aqueles que já tiveram algum contato com a técnica, mas ainda não sabem como ela realmente deve ser aplicada.

Em primeiro lugar, argala só foi realmente incorporado e praticado dentro do método de Jaimini, pois você não encontra essa técnica em nenhum dos textos da tradição Parāśarī. Quem afirma que no BPHS argala é citado, inclusive, provavelmente não sabe que o BPHS de hoje está cheio de interpolações, capítulos faltando e, em vista desses problemas, não é aceito como uma autoridade perfeita e inquestionável, especialmente no que se refere a Jaimini jyotiṣa. A primeira versão do BPHS, dos séculos VI-VIII, não cita argalas no seu índice, que foi por sinal apresentado pelo David Pingree em seu Jyotiḥ-śāstra, um respeitadíssimo livro acadêmico sobre a história da astrologia e astronomia na Índia.

Argala, na verdade, é um conceito que foi apresentado no Upadeśa sūtra (2.1.5-10) de Jaimini e expandido no Jyotiṣa phala ratna mala, Jyotiḥ pradīpikā e no Jātaka sāra saṅgraha, dentre outros textos da tradição de Jaimini jyotiṣa. Porém, a sua utilização não é tão simples, já que há muitas considerações a seu respeito e, inclusive, algumas divergências mesmo entre os autores clássicos sobre um ponto ou outro. No meu caso, a perspectiva que uso, depois de ter estudado suas variantes, foi a que aprendi com o Shanmukha Teli. Essa perspectiva é fiel as ideias clássicas, especialmente do JPRM e do JSS, já que o Jyotiḥ pradīpikā parte de ideias únicas sobre o assunto, mas pouco populares.

Esse artigo, no entanto, não visa ensinar como usar os argalas, pois considero que, ainda mais se tratando de argalas, meio conhecimento é mais perigoso que conhecimento algum. Jaimini não é tão fácil de apreender quando Parāśara (que por sinal já é muito difícil). Muito menos é um método que dá para discorrer facilmente por meio de posts na internet. Minha intenção com relação a esse artigo é simplesmente mostrar o que não é a abordagem clássica dos argalas e dar um indício de como essa técnica foi usada na tradição de Jaimini jyotiṣa. Se alguém a partir disso ainda assim decidir seguir uma visão outra, isso já é uma opção pessoal. O importante é ter consciência de como o conceito foi apresentado em Jaimini jyotiṣa.

terça-feira, 30 de março de 2021

Rāśi-dṛṣṭi pode ser aplicado juntamente de graha-dṛṣṭi?

Algumas vezes já me perguntaram se era válido considerar rāśi-dṛṣṭis e graha-dṛṣṭis conjuntamente. Bem, na verdade, tudo pode, mas nem tudo convêm! No jyotiṣa, nós temos quatro tipos de dṛṣṭis, os quais são aplicados em quatro métodos distintos: (1) Parāśarī e Yavana, onde se utilizam graha-dṛṣṭis; (2) Jaimini, onde se utilizam rāśi-dṛṣṭis; (3) Tājika, onde são usados os mesmos dṛṣṭis da astrologia helenística/medieval; (4) Bhṛgu nāḍī, onde são considerados dṛṣṭis a tudo que dista 2, 12, 3, 5, 7, 9 e 11 casas do graha em questão. Porém, desses quatro dṛṣṭis os mais comumente citados no contexto do jyotiṣa são os graha-dṛṣṭis (olhares dos grahas) e rāśi-dṛṣṭis (olhares dos signos).

Em Parāśarī e Yavana jyotiṣa, apenas graha-dṛṣṭis são considerados, enquanto que em Jaimini jyotiṣa são levados em conta apenas os rāśi-dṛṣṭis. A prova de que esses dṛṣṭis não são misturados na tradição são os próprios astrólogos que perpetuaram essas linhagens. Nos métodos Parāśari e Yavana, por exemplo, temos nomes como Varāhamihira, Guṇakarma, Harji, Kalyāna, Mantreśvara, Vaidyanātha, Vyaṅkateśa, Somayaji, Paṇḍit Dhuṇḍirāja, etc., e absolutamente nenhum desses sequer cita rāśi-dṛṣṭi. Todos eles usavam apenas graha-dṛṣṭi.

Quanto a tradição de Jaimini, os nomes que se destacam são Raghavabhaṭṭa, Lakṣmaṇa Sūri, Vañchanātha, Kṛṣṇamiśra, Somanātha, Nṛsiṁha Suri, Nīlakaṇṭḥa, etc., e nenhum desses autores cita graha-dṛṣṭi em seus tratados. Todos, sem exceção, usavam apenas rāśi-dṛṣṭi. Logo, se você deseja misturar esses dṛṣṭis em sua análise, saiba que essa não é uma abordagem que encontramos entre os grandes nomes do jyotiṣa. O ideal mesmo é manter cada macaco no seu galho, já que misturar dṛṣṭis só torna a análise confusa.

domingo, 21 de março de 2021

Grahas orientais e ocidentais em relação a Sūrya (Sol)

Na astrologia helenística e medieval considera-se que um graha oriental em relação a Sūrya (Sol) é mais forte do que um ocidental em relação ao mesmo. Um graha oriental seria aquele que ascende no céu antes de Sūrya, ou seja, está em grau ou signo anterior. Já o ocidental é o contrário, ele ascende depois de Sūrya, i. e., está em grau ou signo posterior.

A ideia é de que um graha oriental, justamente por ascender antes de Sūrya, seria mais vigoroso e jovial, ao passo que o graha ocidental, por ascender mais tarde, seria mais fraco. No jyotiṣa, no entanto, a impressão que se tem inicialmente é de que esse conceito não foi levado em conta, já que ninguém fala a respeito disso, seja na modernidade ou na literatura clássica.

Porém, esse é um ledo engano, pois na verdade há sim citações clássicas a respeito do conceito. Certa vez, quando estava revisando todo o conteúdo do Jātaka pārījāta para criar um resumo geral, eu encontrei um verso que falava exatamente sobre esse assunto da orientação dos grahas em relação a Sūrya. Vaidyanātha diz (2.70) que os grahas que antecedem Sūrya longitudinalmente estão com a face para cima (supino) e são capazes de produzir felicidade e riqueza, enquanto aqueles que estão em graus posteriores ao dele, estão com a face para baixo (de bruços) e seriam menos produtivos e eficazes. Em outras palavras, Vaidyanātha está falando sobre grahas orientais (com a face para o alto) e ocidentais (com a face para baixo) em relação a Sūrya, exatamente o mesmo conceito usado na tradição helenística e medieval de astrologia.

Mas não foi só essa referência que me fez perceber a presença desse conceito na tradição indiana. Um estudo da Sārāvalī, particularmente dos versos que falam sobre os Sūrya yogas, veśi e vośi, deixaram claro para mim que havia na tradição consciência a respeito desse elemento de delineação.

quinta-feira, 11 de março de 2021

Uma atualização sobre a pandemia

Andei pensando sobre os trânsitos atuais e futuros, e sobre como eles vão incidir na pandemia. Em lives e artigos anteriores eu cheguei a citar que os seguintes trânsitos eram perigosos e assinalavam catástrofes no mundo:

1.  O encontro de Júpiter e Saturno em capricórnio, que se deu em dezembro do ano passado.

2.     Saturno e Marte tencionando um ao outro nos signos de capricórnio e áries, que ocorreu entre 23.12 e 21.02, sendo que Júpiter também foi afetado por essa configuração.

3.      Rahu e Marte se encontrando em touro entre 21.02 e 13.04, o que vem ocorrendo atualmente e cujo pico se dará em meados do dia 26.03, quando ambos formam uma conjunção perfeita, o que pode apontar para um possível pico de mortes e problemas associados ao covid aqui no Brasil, algo que já vem sendo previsto inclusive pelos cientistas.

Ou seja, o primeiro trimestre inteiro vem marcado por configurações difíceis, o que tem se refletido claramente nos eventos atuais, especialmente no Brasil. Ontem mesmo ocorreram mais de 2300 mortes causadas por covid 19 aqui no país, um recorde infeliz.

Também cheguei a citar anteriormente que quando Júpiter ingressasse aquário, haveria uma perspectiva de progresso e libertação para a humanidade. De fato, as coisas estão se encaminhando para isso, pois a vacinação já está sendo extensiva em muitos lugares e no Brasil o governo finalmente se mostrou disposto a estimular o programa de vacinação. Entre abril e setembro, o período que Júpiter estará passando por aquário, teremos a perspectiva de mais pessoas sendo vacinadas por aqui, embora isso não seja suficiente para vacinar a população toda e o número de mortes diárias ainda vá permanecer alto, ao que tudo indica.

Devemos também considerar que Júpiter ainda vai retrogradar para capricórnio, seu signo de debilitação, em setembro. Ele permanecerá no signo até 20 de novembro, quando então fará seu ingresso definitivo em aquário. Embora aquário não seja tão grave para Júpiter como é capricórnio, que inclusive está ocupado por Saturno, um significador de doenças, pobreza e sofrimentos, ainda assim aquário também é um signo de Saturno. Logo, as coisas não vão acabar tão cedo assim ao longo do mundo. A humanidade segue por mais algum tempo mazelada pela influência severa de Saturno sobre Júpiter, que é justamente o significador da vida e dos seres humanos em contato com o significador da morte, das doenças, restrições e sofrimentos.

terça-feira, 9 de março de 2021

Ekadaśī-vrata

Além do mês civil que é tão importante para os calendários em geral, na Índia também se considera, especialmente para observações religiosas, o mês lunar, que se estende de uma Lua nova (āmāvāsya) a outra (amānta-māsa) ou de uma Lua cheia a outra (pūrṇimānta-māsa) a depender da região ou tradição em questão.

Um mês lunar consiste de trinta tithīs (dias lunares), onde quinze se dão durante a fase onde a Lua vai ganhando luz (śukla-pakṣa, que vai do primeiro dia após a Lua nova até a Lua cheia) e quinze durante a fase onde a sua luminosidade decresce (kṛṣṇa-pakṣa, do primeiro dia após a Lua cheia até a Lua nova). Cada uma dessas tithīs corresponde a uma determinada distância longitudinal entre o Sol e a Lua, tendo cada uma delas um nome que geralmente é numérico. Por exemplo, pratipad é o primeiro dia lunar, dvitīya o segundo, etc.

O décimo primeiro dia lunar tanto da fase crescente quando minguante é chamado de ekadaśī (onze) e, nos Purāṇas, esse dia é citado como ideal para cultivar a devoção a Hari (Kṛṣṇa/Nārāyaṇa/Viṣṇu). A tradição recomenda que nesse dia todos jejuem e adorem Hari por meio de bhajanas (canções devocionais), mantra-japa, orações, etc. Logo, o ekadaśī é um vrata, um voto recomendado nas escrituras. Ele é seguido por adeptos de diferentes tradições, porém é especialmente glorificado e observado nas tradições vaiṣṇavas.

Abaixo eu listei algumas explicações do ekadaśī, partindo não só da perspectiva do jyotiṣa, mas também do yoga e do āyurveda, para que todos possam entender melhor e se beneficiar desse dia tão especial:

segunda-feira, 1 de março de 2021

Curso online sobre Rāhu e Ketu - inscrições até o dia 10.05

Em maio, darei um curso online, via google meet, sobre os nodos lunares. Serão oito aulas, quatro sobre Rāhu e quatro sobre Ketu. A ideia inicial é abordar Rāhu nos dias 18, 19, 20 e 21 de maio, e Ketu nos dias 25, 26, 27 e 28 de maio, porém, conforme a disponibilidade dos alunos, posso rever as datas.

Nesse curso aprenderemos tudo sobre como interpretar os nodos lunares, Rāhu e Ketu, conforme o que ensina a literatura clássica. Veremos desde o caráter básico dos mesmos, até seus resultados nas casas, signos e na interação com outros grahas. Tudo será exemplificado com dezenas de mapas, acompanhando PDF para consulta e o acesso a todas as gravações das aulas, o que viabilizará o acesso ao conteúdo mesmo aos que não puderem comparecer aos encontros online.

Os tópicos abordados no curso serão:

 

RĀHU (nodo norte)

1. Sobre a natureza de Rāhu

2. Kārakātva – lista de significados atribuídos a Rāhu

3. Considerações especiais sobre os nodos lunares

4. Rāhu nos doze signos

5. Rāhu nas doze casas

6. Rāhu conjunto a outros grahas

7. Rāhu mahādaśā e trânsitos

8. Upāyas - remédios 


KETU (nodo sul)

1. Sobre a natureza de Ketu

2. Kārakātva – lista de significados atribuídos a Ketu

3. Considerações especiais sobre os nodos lunares

4. Ketu nos doze signos

5. Ketu nas doze casas

6. Ketu conjunto a outros grahas

7. Ketu mahādaśā e trânsitos

8. Upāyas - remédios

 

O prazo máximo para a inscrição no curso será o dia 10 de maio. O valor do investimento é de R$ 800,00, sendo que também é possível parcelar o valor em até 12x via pagseguro com um acréscimo de R$ 40,00, devido a taxa cobrada pelo pagseguro.

Os interessados no curso devem me contatar via whatsapp (12996242742) ou email (jyotishabr@gmail.com). 

 

oṁ tat sat

domingo, 10 de janeiro de 2021

A doutrina dos sectos no jyotiṣa

Há uma doutrina astrológica que acabou se deteriorando na tradição indiana: a doutrina dos sectos. Nessa doutrina, que é de origem helenística, os grahas diurnos seriam Sūrya (Sol), Guru (Júpiter) e Śani (Saturno), enquanto os noturnos seriam Chandra (Lua), Śukra (Vênus) e Maṅgala (Marte). Budha (Mercúrio), por ser de natureza adaptável, se dá bem em ambos os sectos, diurno e noturno.

Essa doutrina dos sectos estabelece que os grahas de natividade diurna ganham força e benevolência em genituras diurnas, enquanto os noturnos ganham o mesmo em genituras noturnas. O inverso também é válido, ou seja, em uma genitura diurna, Maṅgala se torna potencialmente mais maléfico, enquanto que em uma genitura noturna, Śani é quem se torna potencialmente mais cruel. Da mesma forma, os luminares e os benéficos de cada secto perdem parte de sua eficiência e benevolência nos sectos inadequados para os mesmos.

No jyotiṣa, embora essa doutrina tenha sido substituída pela teoria de que Sūrya, Guru e Śukra ganhariam força de dia, enquanto Chandra, Maṅgala e Śani ganhariam força (natonnata-bala) de noite, antes do Bṛhat jātaka de Varāhamihira (séc. VI), a doutrina helenística provavelmente era a que vigorava, já que ela foi, inclusive, apresentada no Yavana jātaka (séc. III) e no Vṛddha Yavana jātaka (IV), os dois primeiros textos de jyotiṣa horoscópicos compostos na Índia.

Porém, o mais interessante não é o fato dessa doutrina ter sido apresentada no Yavana jātaka e no VYJ, mas sim o fato dela ter se preservado sutilmente e já de forma corrupta em ślokas de textos posteriores, na seção que trata dos Chandra yogas. No caso, todos os jyotiṣa-śāstras que discutem os Chandra yogas (todos, praticamente) citam o seguinte:

Se Chandra ocupa seu próprio navāṁśa ou o navāṁśa de um graha amigo, a genitura é diurna e Guru lança um dṛṣṭi a Chandra, o indivíduo será abastado.

ou

Se Chandra ocupa seu próprio navāṁśa ou o navāṁśa de um graha amigo, a genitura é noturna e Śukra lança um dṛṣṭi a Chandra, o indivíduo será abastado.