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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Aquário, o mais maléfico dentre os signos?

Em seu Bṛhat jātaka, no capítulo que trata dos vargas, Varāhamihira cita uma passagem curiosa de Satyācharya, onde esse diz que aqueles que nascem com o lagna em aquário serão infelizes. De acordo com Varāhamihira, no entanto, os yavanas (gregos) diferiam de Satyācharya, pois eles opinavam que não era o lagna em aquário o problema, mas sim o lagna no dvādaśāṁśa (D12) de aquário, algo que o astrólogo Viṣṇugupta (e também Chakanya, de acordo com Kalyāna) discordava. O interessante é que na tradição de Jaimini encontramos uma citação onde, dentre os signos cruéis (áries, leão, escorpião, capricórnio e aquário), aquário é considerado o mais cruel de todos.

Ponderando sobre isso, eu cheguei a imaginar que talvez o fato de Śani (Saturno) - o mais vil dentre os grahas - ter o seu mūlatrikoṇa nesse signo é o que lhe faria mais negativo do que os demais signos de natureza cruel. Porém, essa ideia não se sustenta bem em relação a outros exemplos citados na literatura. Outra possibilidade é a dos astrólogos clássicos terem considerado que, por aquário opor leão, o signo de regência do líder dentre os grahas, Sūrya (Sol), ele seria o signo potencialmente mais vil. Mas, enfim, pode ser que essa inferência dos astrólogos clássicos sobre aquário tenha se dado apenas a partir de observações práticas. Inclusive, é notável que as descrições dadas por eles a respeito do lagna aquário são predominantemente negativas. Os exemplos abaixo já nos dão uma ideia disso:

Varāhamihira (séc. VI): o nascido com o lagna em aquário será inativo; de uma natureza áspera; o mais velho em sua família; de um temperamento que fica entre o pitta e o vāta; seu nariz terá o formato da flor do gergelim; perderá sua riqueza; terá muitos servos; será odiado por seus parentes, preceptores, inimigos e amigos; será afeito às vilanias; adquirirá muita propriedade; jamais gastará em atos de caridade; se exibirá como virtuoso – sem o ser, de fato; adorará aos devas; sofrerá de problemas fleumáticos que lhe afetarão os órgãos na região do peito; seu fim se dará em função de dores na região da barriga, vômitos e por drogas que lhe serão administradas por mulheres.

Kalyāna (séc. X): aquele que nasce com o lagna em aquário se dedicará aos atos vis; ele se destacará entre os seus; será tolo, vil, irascível e indolente; se mostrará inclinado à inimizade; insatisfeito e áspero; afeito a jogatina e às relações com mulheres vis; não se mostrará solidário com seus parentes; será agitado; embora adquira riqueza, a sua prosperidade será flutuante; contará mentiras; será astuto; sofrerá com a penúria; perderá seus parentes; será proibido/censurado nos círculos sociais; de natureza desagradável; honrará os mais velhos.  

Mantreśvara (séc. XV): o nascido sob o lagna aquário cometerá atos vis secretamente; seu corpo terá a forma de um pote de água; ele será hábil em ferir os demais; é capaz de caminhar por longas distâncias; goza de recursos limitados; é ganancioso; não hesita em se valer da riqueza dos outros; suas finanças passam por altos e baixos; é afeito aos aromas dos perfumes e das flores.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Como progredir nos estudos de jyotiṣa?

Tenho uma fórmula muito boa para quem deseja progredir no estudo do jyotiṣa. O primeiro passo é se informar se você possui boas configurações para isso no seu mapa, o que é muito importante. O segundo passo é estudar algum texto contemporâneo que dê uma boa introdução ao tema, como é o caso do Light on Life do Robert Svoboda & Hart de Fouw, o Elements of vedic astrology do Dr. K. S. Charak, o How to judge a horoscope do B. V. Raman ou o Learn hindu astrology easily do K. N. Rao.

O terceiro passo é adentrar os clássicos, idealmente sob a orientação de algum professor que possa te ajudar a abreviar a sua passagem pelas sentenças conflituosas da literatura e iluminar os significados de certas técnicas e conceitos. Inicialmente é importante focar apenas em um professor e, depois, adquirindo mais discernimento, a pessoa também pode aprender com muitos outros sem acabar confusa. O professor te dá um atalho de anos e pode poupar muito desgaste desnecessário nos seus estudos. Porém, é preciso buscar alguém que ensine de acordo com os clássicos. O problema é que para saber se ele realmente procede dessa forma você terá não só que exigir referências como também estudar a literatura clássica. Pois então, quais textos seriam importantes? Existem inúmeros, mas quatro deles são fundamentais na tradição, de acordo com os pāṇḍitas (eruditos) em jyotiṣa. O primeiro texto é o Bṛhat jātaka (séc. VI) de Varāharamihira, o segundo é a Sārāvalī (séc. X) de Kalyāna Varma, o terceiro é a Phaladīpikā (séc. XV) e o quarto é o Jātaka pārījāta (XV). O já póstumo Madhura Krishnamurthy Shastry, um pāṇḍita muito respeitado do jyotiṣa, classificou o Bṛhat jātaka e a Sārāvalī como textos de yavana jyotiṣa, o jyotiṣa que possui mais características yavanas (estrangeiras) e cujo primeiro modelo textual foi o Yavana jātaka (séc. II) de Sphujidhvaja. No caso, o Bṛhat jātaka é uma versão mais concisa de yavana jyotiṣa, enquanto a Sārāvalī é uma versão bem mais extensa, com descrições elaboradas dos grahas nas casas, signos, das conjunções e vários outros fundamentos.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Vaiśeṣikāṁśas e o mapa de Johannes Kepler


Os vaiśeṣikāṁśas ou divisões de excelência, levam em conta o número de vargas em que um graha ocupa suas dignidades, ou seja: uccha (exaltação), mūlatrikoṇa e svakṣetra (domicílio). Para cada varga que um graha ocupe tais divisões, um ponto lhe é acrescentado. De acordo com o número de divisões que um graha obtém, determinados títulos lhe são conferidos. Os efeitos do mesmo podem ser interpretados com base nesses títulos. Tal técnica aparece pela primeira vez entre os séculos VI e VIII, no Bṛhat Parāśara horā śāstra, ao que tudo indica. Os vaiśeṣikāṁśas também aparecem na Phaladīpikā, no Jātaka pārījāta e no Sarvārtha chintāmaṇi, os quais usavam daśavarga, ou seja, dez vargas para a análise de vaiśeṣikāṁśa: rāśi, horā, drekkāṇa, saptāṁśa, navāṁśa, daśaṁśa, dvadāśāṁśa, ṣoḍaśāṁśa, triṁśaṁśa e ṣaṣṭyāṁśa. 

Os títulos que um graha ganha quando ocupa de dois a nove vargas próprios são pārījātāṁśa, uttamāṁśa, gopurāṁśa, siṁhāsanāṁśa, parvatāṁśa, devalokāṁśa, suralokāṁśa e airavatāṁśa. O décimo varga, o ṣaṣṭyāṁśa, não compreende signos em suas divisões, mas sim divindades, logo, não há como um graha deter dignidade no mesmo, daí de só haver nove vaiṣeśikāṁśas possíveis, invés de dez.

Alguns exemplos de ślokas clássicos que citam os vaiṣeśikāṁśas são:

"O indivíduo será devotado a ontologia se Júpiter ocupar um kendra ou koṇa sob o olhar de Mercúrio e Vênus, enquanto Saturno detém paravatāṁśa (Jātaka pārījāta, 11.85)." 

"Quando Júpiter ocupa um kendra, Vênus detém siṁhāsanāṁśa e Mercúrio, sendo senhor do navāṁśa ocupado pelo senhor de dois, detém gopurāṁśa, o indivíduo será proficiente nos seis vedāṅgas - śikṣā, chandas, vyākaraṇa, nirukta, kalpa e jyotiṣa (JP, 11.86)." 

"Se o senhor da dois detém gopurāṁśa e Vênus parvatāṁśa, todos aqueles que viverem sob a proteção do indivíduo prosperarão e serão felizes (JP, 11.87)." 

"O senhor da cinco em uma casa auspiciosa e a deter vaiśeṣikāṁśa faz do indivíduo inteligente e sincero (Phaladīpikā, 16.15)." 

"Se o Sol detém devalokāṁśa e o lagneśa está forte, enquanto o senhor da nove ocupa a sua exaltação, o indivíduo será famoso e afortunado (Sarvātha chintāmaṇi, 02.71)." 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Quais são afinal as diferenças entre Parāśara e Jaimini?

Em vista das dúvidas que algumas pessoas acabam tendo quando digo que misturar Parāśara e Jaimini não dá certo nem é recomendado na literatura, eu decidi escrever esse esclarecimento. No caso, é importante entender o que cada um desses dois métodos de jyotiṣa tem como característico, antes de falarmos sobre as misturas.

Parāśarī jyotiṣa é, em outras palavras o método yavana (descrito no Yavana jātaka, Bṛhat jātaka, Sārāvalī, Horā makaranda, etc.) reformado. O que lhe distingue são os seguintes elementos:

Graha-dṛṣṭis olhares dos grahas.

Udu-daśās daśās calculadas a partir do nakṣatra ocupado por Chandra (Lua), como é o caso da viṁśottarī, aṣṭottarī, kālachakra daśā, etc.

Upagrahas – grahas secundários, como Gulikā, Dhūma, Upaketu, etc.

Yogas gaja kesari, śaṅkhā, kāhala, Lakṣmī, Sarasvatī yoga, etc.

Ṣaḍ-bala cálculo de forças.

Aṣṭakāvarga cálculo aplicado tanto a análise natal quanto também de trânsitos e daśās.

Natureza funcional – análise da natureza dos grahas conforme a regência que adquirem.

Āyurdāya o cálculo de longevidade em Parāśara é baseado em uma técnica envolvendo os regentes de um, oito e dez, assim como também nos métodos aṁśāyu, nisargāyu, etc.

Em suma, isso é Parāśarī jyotiṣa, pois é exatamente assim que Phaladīpikā, Jātaka pārījāta, Jātaka deśa marga, Sarvārtha chintāmaṇi e outros textos ligados a essa tradição representam o método Parāśarī.

Agora, em relação a Jaimini, o que distingue o método são os seguintes elementos:

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Indira Gandhi e os seus muitos parivartana yogas

Se há um yoga que gera confusões, esse yoga é o parivartana, que na verdade consiste em um dentre os quatro tipos de sambandhas, relacionamentos possíveis entre os grahas. Os outros três seriam a conjunção (yuti), o olhar mútuo (paraspara-dṛṣṭi) e a recepção (adhipati-dṛṣṭi).

A palavra parivartana significa “troca”, referindo-se, nesse caso, ao fato de dois grahas ocuparem um o signo do outro, como no exemplo onde Guru (Júp) ocupa libra e Śukra (Vên) ocupa peixes. Na tradição helenística, medieval, etc., de astrologia, o nome que foi dado a essa configuração é recepção mútua.

Os indianos classificaram o parivartana como pūrṇa-sambandha, ou seja, como um relacionamento pleno entre os grahas. Isso porque tais grahas vão dispor um ao outro, o que criaria entre eles uma forte relação de cooperação, a qual pode tanto gerar o bem quanto também o mal, a depender da configuração em questão. 

Em relação a isso, o sábio Mantreśvara dividiu os parivartanas em três tipos: mahā, khala e dainya. Suas definições são as seguintes:

Mahā: envolve os regentes dos bhāvas 1, 2, 4, 5, 7, 9, 10 e 11.

Khala: envolve o regente do bhāva 3 com o regente de qualquer bhāva.

Dainya: envolve o regente dos dusthānas (6, 8 e 12) com o regente de qualquer bhāva.

O mahā parivartana, naturalmente é benéfico, já que envolve regentes de bhāvas positivos, enquanto o dainya é negativo e o khala intermediário.

Para exemplificar como os parivartanas funcionam e devem ser interpretados, vou usar o mapa da Indira Gandhi, que é o mais icônico dos mapas para se estudar essa configuração. No caso, vou focar especialmente nos resultados das daśās dos grahas envolvidos nos parivartanas, pois essa é a forma mais eficaz de compreender como os grahas e seus yogas funcionarão em um mapa.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Desmistificando o horóscopo diário

Muitas pessoas acabam entrando em contato com a astrologia por meio dos horóscopos de jornais, revistas e sites, os quais se baseiam no signo solar, geralmente tropical, para realizar certas predições diárias, semanais, quinzenais ou mesmo mensais. Naturalmente, por uma questão de praticidade, tais predições se confinam ao signo solar e, portanto, dividem toda a humanidade, com seus aproximadamente oito bilhões de seres humanos, em apenas doze padrões astrológicos.

Essa prática teve origem em meados de 1920, por influência de Alan Leo, que sendo um dos primeiros astrólogos designados modernos e um perito homem de negócios, com escritórios em Londres, Paris, Nova Iorque e uma equipe de cerca de doze pessoas, começou a produzir milhares de horóscopos ao ano, todos baseados em um único e simples fator acessível a todos: o signo solar (tropical). Definitivamente, essa foi uma jogada de marketing brilhante, isso é inegável, pois com isso Alan Leo conseguiu engordar seu bolso e massificar o interesse pela astrologia, que antes era um assunto complexo e geralmente limitado a classe intelectual ou mais abastada. Graças a sua “contribuição”, agora toda e qualquer pessoa, sabendo sua data de nascimento, pode consultar seu horóscopo diário, semanal, etc., não sendo necessário saber qual é o seu ascendente, posição lunar e muito menos as posições dos outros grahas, as relações entre eles, suas dignidades e tantas outras informações “enfadonhas”.

Agora, pensem comigo: faz sentido dividir toda a humanidade, com seus aproximadamente oito bilhões de seres humanos, em apenas doze padrões astrológicos? Não, isso não faz qualquer sentido. É completamente absurdo e, portanto, não passa de uma jogada de marketing ou de puro entretenimento. Não há diferença alguma entre essa abordagem e os anúncios de internet como: “aprenda a tocar qualquer instrumento em uma semana!”, ou “alcance o sucesso seguindo apenas três passos!”. Ainda assim, muitos não percebem isso ou quando percebem, já logo assumem que astrologia é apenas mais uma forma de charlatanismo.

sábado, 27 de julho de 2019

Refutando a presença de "mapas divisionais" na literatura clássica

Hoje fui marcado em uma postagem de uma pessoa que clama haver sim nos clássicos indicações dos vargas enquanto mapas divisionais, algo que venho refutando já a algum tempo por meio de algumas postagens (vide esta e esta). O mais engraçado é que a pessoa em questão só citou o Bṛhat Parāśara horā, texto que só é autoridade entre astrólogos desinformados, pois todos estão carecas de saber que esse texto além de diferir do original está cheio de interpolações, visto ser fruto de uma tentativa de recompor o texto datado de meados do século VI-VIII e que era dividido em dois khandas: pūrva e uttarakhanda. Inclusive, quem tentou recompor o texto original do BPHS foi um brāhmaṇa que viveu no século XIX. A partir daí algumas traduções e comentários começaram a surgir, dos quais o de Sitaram Jha ficou muito popular, embora esse só exista em hindi. Em inglês há apenas duas traduções, as quais são mais recentes, uma de Girish Chand Sharma e outra de R. Santhanam. Geralmente a tradução que as pessoas acessam pela internet é a do R. Santhanam e a maior parte dos astrólogos de hoje em dia usa essa versão como referência, a qual já possui alguns elementos distintos da tradução de Sitaram Jha e outros astrólogos inacessíveis para aqueles que não sabem hindi.

O que as pessoas em geral não sabem, no entanto, é de que os paṇḍītas em jyotiṣa não usam o BPHS como referência principal, mas apenas secundária, justamente por saberem dos problemas acima citados sobre o mesmo. As verdadeiras referências do jyotiṣa são, em especial, quatro textos clássicos: Bṛhat jātaka de Varāhamihira (séc. VI), Sārāvalī de Kalyāna (séc. X), Phaladīpikā de Mantreśvara (séc. XIII ou XV) e Jātaka pārījāta de Vaidyanātha (séc. XV). Nenhum paṇḍīta realmente versado toma do BPHS como autoridade principal, pois para entender o BPHS os textos acima mencionados é que são utilizados, pois em particular a Phaladīpikā é um texto de Parāśarī jyotiṣa e que apresenta os princípios de Parāśara livre das interpolações modernas de Jaimini jyotiṣa.

Dada essa introdução, agora podemos proceder para o verdadeiro intuito desse texto que é demonstrar  por meio de sólidas referências acadêmicas como a interpretação dos ślokas citados no artigo em que fui marcado é completamente incorreta, pois a pessoa em questão, por meio de apenas quatro ślokas mal interpretados do BPHS, tenta derrubar a ideia clássica - que ela de maneira cômica chama de moderna - de que os vargas devem ser usados apenas como divisões de um signo e não como “mapas divisionais”.

A pessoa em questão afirma que Parāśara nos pede para olhar o mapa navāṁśa, com suas conjunções, dṛṣṭis e casas, quando em momento algum Parāśara se refere a coisas do tipo. Nesses quatro ślokas, dois pedem apenas que olhemos o navāṁśa ocupado pelo lagna e pela cúspide da sete, algo comumente utilizado nos textos clássicos, inclusive nos quatro principais que mencionei mais acima, enquanto os outros dois ślokas tratam da técnica rāśi-tulya-navāṁśa, onde se transpõem o navāṁśa ocupado por um graha sobre o mapa natal para se obter uma informação adicional dos seus resultados. No caso, para que fique bem claro no que consiste a técnica de rāśi-tulya-navāṁśa cito logo abaixo três exemplos:

terça-feira, 18 de junho de 2019

A importância do lagna, de Chandra e de seus senhores

Arte de Sol Luckman.
Um estudo cuidadoso dos jyotiṣa-śāstras revela que, para que um indivíduo tenha êxito na vida, seja na área que for, ele precisa, principalmente, do lagna, lagneśa, de Chandra e do dispositor de Chandra bem colocados. Isso é imanente em vários textos e explícito na Phaladīpikā de Mantreśvara, autor esse que considero o mais conciso e inteligente dentre os principais nomes do jyotiṣa que vieram após o grande Varāhamihira.

Não é difícil de entender porque lagna e Chandra devem estar bem, pois após o lagna, o segundo elemento mais importante para a prosperidade geral de um jātaka é justamente Chandra. Consequentemente, os senhores tanto do lagna quanto de Chandra também são de suma importância, pois qualquer ponto de um jātaka só vai realmente prosperar quando o seu senhor estiver bem colocado, do contrário seus resultados serão no máximo mistos.

Situações onde esses quatro pontos ou a maior parte deles está em más condições, apontam para fraqueza moral, debilidade física, infelicidade, inquietude mental, tolice, incapacidade de se suceder bem diante de desafios e, no pior dos casos, leva a uma vida obscura ou na qual o indivíduo apenas não realiza nada de significativo e nem atinge qualquer posição notável, seja no âmbito que for. Claro que isso pode ser rebatido por certos yogas ou mesmo pela própria boa disposição dos dispositores destes pontos, como fica claro em yogas como kāhala, parvata e kalpadruma, assim como pela linha de raciocínio fortemente presente no Sarvārtha chintāmaṇi a respeito da importância dos dispositores. Porém, em geral, as condições do lagna, de Chandra e de seus dispositores acabam sendo decisivas, podendo tanto ampliar os resultados dos bons yogas e diminuir as aflições dos maus yogas, como também realizar o contrário.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A abordagem clássica dos vargas (divisões)

Após anos estudando os vargas (divisões), testando diferentes cálculos, técnicas e investigando a fundo o que é dito nos clássicos a respeito, a conclusão a que cheguei foi de que o uso dos vargas, enquanto mapas individuais é uma abordagem moderna. Se nos referimos ao Bṛhat jātaka ou mesmo a textos mais recentes como o Jātaka pārījāta, fica evidente, por meio desses, que os vargas eram usados apenas como divisões de um signo e não como mapas individuais com casas, conjunções e olhares entre os grahas.

Basicamente, as técnicas mencionadas entre os autores clássicos, giram em torno do seguinte:

(1) Especificar mais detalhadamente os resultados de um graha, combinando o signo ocupado no rāśi com o horā, drekkāṇa, saptāṁśa, navāṁśa, dvadaśāṁśa, ṣoḍaśāṁśa, triṁśāṁśa ou ṣaṣṭyāṁśa ocupado pelo mesmo. No caso, ênfase especial ao horā, drekkāṇa, navāṁśa, triṁśāṁśa e ṣaṣṭyāṁśa são encontradas nos clássicos. Quanto aos demais vargas, ou são mencionados em alguns raros casos ou então nem sequer encontramos exemplos de sua aplicação.

(2) Analisar a situação do dispositor do navāṁśa, drekkāṇa ou outro varga ocupado por um graha, a fim de delinear melhor os seus resultados. Um exemplo clássico é notar o senhor do navāṁśa ocupado pelo senhor da dez e a partir disso delinear o tipo de carreira que o indivíduo tenderá a seguir. Se o senhor da dez ocupa um navāṁśa de sagitário ou peixes, p. e., os temas de Guru influenciarão a sua carreira e, portanto, pode-se notar a posição de Guru no jātaka para uma delineação ainda mais precisa. Essa técnica da análise do dispositor é especialmente usada em relação ao navāṁśa, sendo raramente considerada com outros vargas.

(3) A técnica conhecida como 
rāśi-tulya-navāṁśa, em que o signo ocupado pelo graha não só no rāśi como também no navāṁśa é tomado como referência no rāśi para julgar melhor os seus efeitos gerais.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Considerações importantes sobre viparīta rāja yoga

Dentre os yogas, talvez um dos mais incompreendidos seja o viparīta rāja yoga, um tipo de rāja yoga que manifesta seus resultados apenas após alguma situação estressante e dolorosa, ou seja, após algum tipo de revés (viparīta - contrário, inverso, oposto). A razão principal desse ser um yoga tão incompreendido é a divergência existente em relação ao tema entre os astrólogos tanto clássicos quanto contemporâneos.

Mantreśvara, por exemplo, no cp. sexto de sua Phaladīpikā, opina que o viparīta ocorre quando (1) o senhor de seis ocupa a oito ou a doze sob influência de um maléfico; (2) o senhor de oito ocupa a seis, oito ou doze; (3) o senhor de doze ocupa a seis ou oito sob influência de um maléfico. Os nomes que ele dá a esses yogas são, respectivamente, harṣa (deleite), sarala (honesto, correto) e vimala yoga (puro), e seus efeitos incluem um bom caráter, destemor, sucesso e riqueza, dentre outros. No entanto, para que o viparīta seja funcional não pode haver parivartana (recepção mútua) envolvendo um senhor de dusthāna com o senhor de qualquer outra casa, pois isso desencadeia um dainya yoga, um yoga para miséria, pobreza e difíceis revezes na vida. Essas são, basicamente, as opiniões de Mantreśvara quanto a viparīta rāja yoga.

Outro astrólogo - posterior a Mantreśvara -, chamado Kālīdāsa e que é autor do Uttara kalāmṛta, já tem uma opinião um pouco distinta, inclusive, ele é quem usa pela primeira vez o termo viparīta rāja yoga. No cp. quarto, ele diz que um viparīta ocorre quando o senhor de um dusthāna ocupa outro dusthāna - assim como menciona Mantreśvara -, mas sem a interferência de qualquer outro graha que não seja o senhor de um dusthāna. Além disso, na opinião de Kālīdāsa, se os senhores de dusthānas formam um parivartana entre si, isso também gera um viparīta ao invés de um dainya yoga, como afirma Mantreśvara. Conjunções e outros sambandhas (relacionamentos) entre senhores de dusthānas, mesmo que não se deem em dusthānas, para Kālīdāsa também são viparītas.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Conhecimento espiritual e escritural, paciência, memória e contemplação

No Charaka saṃhitā, importante texto de āyurveda, é mencionado que as doenças físicas resultam de vāta, pitta e kapha, enquanto as da mente, são resultantes das perturbações causadas por rajas (paixão/apego/egoísmo) e tamas (ignorância/obscuridade/inércia). 

O interessante é que no que se refere ao tratamento dos problemas resultantes da mente, a recomendação dada no texto é basicamente o cultivo de (1) conhecimento espiritual e escritural, (2) paciência, (3) memória e (4) contemplação, pois assim rajas e tamas podem ser removidos e sattva (equilíbrio/bondade/pureza/conhecimento) evocado. Essas são recomendações muito pontuais, sendo aplicáveis também ao jyotiṣa no que se refere aos upāyas (remédios).

O cultivo de conhecimento espiritual por meio do estudo escritural (no caso dos hindus, focado nos purāṇas, nas upaniṣads e nos vedas, principalmente), p. e., é chamado de svadhyāya yajñā, o sacrifício envolvendo o estudo do eu. O ideal é que diariamente dediquemos algum tempo ao cultivo de conhecimento espiritual por meio das escrituras, pois isso otimiza sattva, traz clareza quanto a realidade das coisas e da natureza do eu. Esse estudo, quando combinado com a memorização e a recitação de ślokas (versos), stotras e mantras, assim como da memorização ou rememoração de princípios filosóficos, ajuda não só a evocar sattva como também estimula o desenvolvimento de regiões do cérebro associadas a memória, a capacidade de tomar decisões e a percepção sensorial, como já foi comprovado em estudos neurológicos sobre a diferença entre o cérebro de paṇḍītas dedicados a memorização dos textos védicos e indivíduos comuns.

Em relação a paciência, o termo usado em sânscrito é dhṛti, cujo significado também pode ser determinação, vontade, estabilidade e resolução. Sem dhṛti, não se pode alcançar paz de espírito, uma vez que a vida envolve uma mistura de eventos felizes e tristes, os quais se alternam continuamente. A paciência ou a equanimidade, portanto, é essencial, pois quem espera que o ambiente se curve as suas vontades certamente se frustrará, uma vez que infelicidades e misérias jamais podem ser completamente evitadas em um mundo como este. Logo, mais sábio é curvar-se a vida, afinal, não temos outra opção a não ser aceitarmos os frutos do nosso karma, enquanto nos empenhamos em prol do aperfeiçoamento pessoal pacientemente, mantendo sempre uma perspectiva ampla dos eventos vivenciados.

Por fim, no Charaka saṃhitā também recomenda-se a prática da contemplação como uma forma de mitigar rajas e tamas, o que evoca não só conhecimento (jñāna) como também realização espiritual (vijñāna). Nesse caso, a contemplação incluí tanto dhyana (meditação) quanto também mantra japa (a prática meditativa de um mantra). Inclusive, na literatura do jyotiṣa, a prática de mantra é especialmente enfatizada, enquanto graha śantīḥ, o que conecta essa recomendação do āyurveda as próprias recomendações já presentes no jyotiṣa e, não só, o próprio Mantreśvara, em sua Phaladīpikā, faz recomendações análogas as de Charaka, embora não seja tão específico quanto o mesmo. Ele diz o seguinte (26.50):

"Os grahas são favoráveis àqueles que não prejudicam aos demais, que exercitam o autocontrole e são sempre atentos ao caminho e as regras de conduta delineadas nos śāstras, observando uma disciplina religiosa."

om tat sat

sábado, 24 de março de 2018

Os trânsitos difíceis de Śani: sade sati, ardhāṣṭama e aṣṭama

Uma deidade de Śani deva
Sūrya (Sol) possui dois filhos que são encarregados de punir a todos os seres que infringem as leis do dharma: Yāma e Śani. Yāma castiga após a morte os seres que se dedicaram a atividades ímpias, enquanto Śani trata de castigá-los ainda em vida. Não a toa, as pessoas em geral temem os trânsitos de Śani, assim como temem a sua mahādaśā de 19 anos, o que é até certo ponto justificável.

Se consultamos os textos em sânscrito de jyotiṣa vemos que todos os autores em uníssono declaram que os trânsitos de Śani só são auspiciosos quando se dão nas casas três, seis e onze a partir de Chandra, ou seja, apenas uma faixa de sete anos e meio, dentro do ciclo (paryāya) de Śani de vinte e nove anos e meio, ainda sim, com intervalos amplos entre um trânsito e outro. Porém, não podemos generalizar tais efeitos, uma vez que há muitas variações possíveis em termos de resultados e não necessariamente todos os trânsitos definidos como negativos ou positivos para Śani serão de fato fieis a isso. Afinal, temos as daśās (períodos da vida) e as próprias promessas do mapa natal para comparar com os trânsitos, o que já aumenta muito o número de variáveis possíveis, isso sem falar do aṣṭākavarga, um sistema de análise dos trânsitos que atribui pontuações variáveis para cada trânsito, quebrando assim com o esquema quadrado de que apenas os trânsitos de Śani por três, seis e onze são auspiciosos.

Mas, ainda sim, é verdade que certos trânsitos de Śani podem ser bastante difíceis, cruéis e até mesmo fatais. Geralmente, isso se dá quando há uma confluência negativa por parte do trânsito, da daśā regente e também das próprias promessas natais. P. e., quando Śani transita a um, dois, quatro, oito ou doze a partir de Chandra, o indivíduo tende a vivenciar as fases mais difíceis de sua vida, especialmente se a daśā vigente for de um māraka (assassino) ou de um chidra graha[1], ou seja, a daśā do senhor da oito, de um graha na oito, do senhor do 22º drekkāṇa ou do 64º navāṁśa, do dispositor de Gulika ou de um graha relacionado ao mesmo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Esclarecimentos sobre graha marana sthana

Na Phaladipika e também no Jataka parijata é apresentando um conceito chamado marana sthana ou graha marana sthana. Ele envolve certos trânsitos fatais, que são basicamente: Guru na três, Chandra na oito, Mangala na sete, Shukra na seis, Rahu na nove e Shani no lagna, ao passo que em relação aos trânsitos de Surya e Budhaenquanto Mantreshvara sustenta que Surya na cinco e Budha na quatro teria o efeito de marana, Vaidyanatha opina que Surya na doze e Budha na sete é que caracterizaria um trânsito fatal. 

Porém, recentemente encontrei uma opinião que favorece Mantreshvara em praticamente todos os marana sthana, trata-se da opinião do sábio Pulippani em seu Pulippani jotidham. O único ponto que Pulippani discorda é quanto a Rahu, o qual para ele tem seu marana sthana na dois, algo que não encontramos em nenhum outro texto popular.  

Independentemente da visão adotada, o que é importante esclarecer é que os marana sthanas dos grahas são utilizados para determinar trânsitos que põem em risco a vida do indivíduo, sendo eles cumulativos e dependentes de uma confluência negativa por parte da dasha que o indivíduo experimenta em tal período. No que tange o horóscopo natal, ter um graha em seu marana sthana é preocupante especialmente quando tal graha sofre aflições, está mal colocado por signo e é regente ou se relaciona com um regente de dusthana (6, 8 e 12) ou maraka (2 e 7). Nesse caso, tal graha pode vir a atuar como um maraka (assassino) em sua dasha, tirando a vida do indivíduo.