domingo, 11 de abril de 2021

A qualificação mais importante de um astrólogo

Ao longo dos tratados clássicos de jyotiṣa encontramos menções diversas das qualificações necessárias para a prática dessa arte. Porém, se formos resumir o que é realmente importante para ser um jyotiṣī, a resposta é satyaṁ (veracidade). A veracidade é uma qualidade própria dos brāhmaṇas, aqueles que se inclinam ao conhecimento e à pureza. O grande Chandulal S. Patel, certa vez, ao ser indagado sobre o que um jyotiṣī deveria fazer para ser bem-sucedido em suas predições, respondeu apenas o seguinte: “Falar sempre a verdade”.

Parece simples, mas não é. Pois facilmente podemos comprometer a verdade visando os nossos próprios interesses. Porém, um brāhmaṇa é sempre veraz, mesmo que isso desagrade a muitos e o torne impopular. Dinheiro, fama e seguidores, para um brāhmaṇa não tem valor algum se envolvem comprometer a verdade. Isso é o que faz dele um indivíduo de essência sincera e idealista.

Politicagem, promoção pessoal, utilização de meios artificiais para obter reconhecimento, dinheiro e seguidores, assim como manipulação são coisas que um brāhmaṇa não se dedica a realizar. Logo, como ele ganha a vida? Simplesmente se devotando com afinco ao estudo de uma disciplina intelectual e compartilhando o conhecimento que possui, sem estratégias de marketing, acordos e coisas similares. Se o conhecimento que ele possui é realmente sólido, as pessoas naturalmente irão lhe procurar. Não há necessidade de recorrer a métodos comerciais de divulgação pessoal. A única coisa que o brāhmaṇa precisa é de um meio ou espaço no qual ele poderá expor o seu conhecimento, que sendo refulgente por si só, naturalmente atrairá aqueles que buscam esclarecimento.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Júpiter em aquário age como se estivesse exaltado (em câncer)?

Já que Júpiter finalmente ingressou aquário e há pessoas em dúvida sobre os resultados desse posicionamento, vou aproveitar para esclarecer a afirmação controversa de Varāhamihira (século V) que é causa de tais dúvidas. Basicamente, ele diz o seguinte:

"Júpiter em aquário produz os mesmos resultados de Júpiter em câncer. – Bṛhat Jātaka"

Ou seja, ele afirma que Júpiter em aquário age como exaltado. Mas veja agora o que o próprio Varāhamihira diz sobre Júpiter em câncer:

"...será abençoado com joias, filhos, riqueza, esposa, poder, inteligência e confortos. – Bṛhat Jātaka"

Em tese, seria isso que Júpiter em aquário ofereceria, mas o problema é que na prática os resultados de um Júpiter em câncer são muito distintos dos de Júpiter em aquário, o que fica ainda mais claro quando comparamos os resultados desses em ângulos. Mas nem será o caso de fazer isso aqui. Vamos apenas comparar o que outros autores dizem sobre ambos os posicionamentos, a começar por Júpiter em câncer:

"Aquele que possui Júpiter em câncer será um erudito, belo, alguém altamente instruído, caridoso, de uma natureza benevolente, muito forte, famoso, possuirá grãos em abundancia e riquezas. Além disso, será veraz e dado a realizar penitências, terá filhos longevos, será honrado por todos, um rei, terá uma profissão distinta e será apegado a seus amigos. –Sārāvalī"

“O indivíduo com Júpiter em câncer adquirirá uma grande variedade de riquezas e seu trabalho progredirá bem. Ele será bem versado nos śāstras, assim como em diferentes artes, se mostrará um orador astuto, talentoso e possuirá cavalos e elefantes. – Mānsagari"

"Aquele que nasce com Júpiter em câncer será sábio e terá muitos filhos. – Jātaka-pārijāta"

Já em relação aos resultados de Júpiter em aquário, os autores posteriores à Varāhamihira dizem o seguinte:

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Uma análise do mapa do Ayrton Senna


A pedido, vou apresentar aqui o que vejo sobre a partida precoce do Ayrton Senna, assim como também sobre o seu talento e renome. Começando pela questão da longevidade, o primeiro ponto é que ele tem dois benéficos, a Lua e Júpiter, na doze, um dusthāna. Isso por si só já um indicativo negativo para a longevidade, mas que deve ser relacionado a outros pontos. 


Como o regente do ascendente dele, Saturno, também ocupa a doze e ainda aflige os benéficos, temos um testemunho ainda mais negativo para a longevidade. Os senhores de um, oito e dez também não estão posicionados de forma ideal, como é demandado em um método de análise de longevidade citado na literatura. Isso é agravado pelo fato do Ayrton ter apenas maléficos ocupando kendras e koṇas. No ascendente ele tem Marte, enquanto na nove ele tem Rāhu.


Em relação ao Marte, o fato dele estar forte em um ângulo é um testemunho comum para mortes violentas, rápidas, que envolvem fogo, acidentes, etc., como já testemunhei em muitos casos, além de ser também algo pontuado na literatura clássica. Mas há algo mais: para o ascendente do Ayrton, Marte é o bādhakeśa, além de ser, nesse caso, dispositor de Gulikā. Pulippani cita em seu Pulippani Jothidam que o bādhakeśa em ângulo é especialmente indesejável, ao passo que Vaidyānatha cita como indesejável ter Gulikā relacionado ao bādhaka ou ao bādhakeśa, algo que ocorre nesse caso e só reforçou o testemunho negativo de seu Marte angular. Como Marte olha a oitava casa, deixa evidente que sua morte estaria relacionada a algo da natureza do mesmo: um acidente.

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Sua morte se deu na viṁśottarī daśā de Rāhu/Rāhu, sendo que Rāhu, embora ocupe a nove, está sob o olhar do Sol, regente de oito. O dispositor de Rāhu, Mercúrio, também ocupa um māraka-sthana, a dois, reforçando o testemunho. No dia de sua morte, ainda tínhamos Marte transitando o Sol natal, regente de oito, e lançando olhar a seis (acidentes), enquanto Saturno transitava o regente de seis e Júpiter olhava tanto esse regente quanto a própria casa seis.

Quanto ao seu talento e renome, isso se deve ao ruchaka mahāpurūṣa yoga que Marte forma no ascendente, estando, inclusive a meros minutos de distância do seu grau máximo de exaltação e ainda predominantemente cercado por grahas benéficos. Isso fez do Senna alguém renomado por sua coragem e habilidade no âmbito esportivo. Marte é até mesmo o regente de quatro (veículos), indicando algo mais sobre onde ele se destacaria.

Os regentes de nove e dez conjuntos na dois a formar um rāja/dhana yoga notável, assim como também o suśubha, śāṅkha, śarada e o gaja kesari yoga presentes em seu mapa são outros fatores que contribuíram significativamente para que ele fosse uma figura rica e famosa. O seu regente de dez, inclusive, é Vênus (veículos) conjunto ao regente de seis (competições), ambos situados em śatabhiṣa, um nakṣatra de natureza móvel e que favorece, portanto, uma carreira envolvendo viagens e movimentação de modo geral.

 

oṁ tat sat

terça-feira, 6 de abril de 2021

Um estudo da daśā atual de Michael Schumacher

 

Estava estudando o mapa de Michael Schumacher, tentando entender o que levou ele a ficar na situação que se encontra agora, completamente paralisado. Me surpreendi com o que encontrei. Ele está vivendo a daśā de Mercúrio desde 2008, sendo esse um māraka que forma uma conjunção estreita com Gulikā no bādhaka-sthana. Mercúrio ainda está recebendo o olhar de Júpiter, que é regente de oito e do próprio drekkāṇa da oito. Vaidyanātha chega a citar no Jātaka pārījāta que quando Gulikā ou o regente do drekkāṇa da oito se relaciona com o bādhaka ou com o bādhakeśa, isso gera efeitos muito adversos, o que inclui naturalmente doenças, acidentes e situações de aprisionamento.

Schumacher não só tem a configuração citada por Vaidyanātha, como ela ainda envolve um māraka. A partir da Lua, Mercúrio é o seu dispositor colocado na oito, outra indicação forte para um evento desastroso. Também é importante notar que Mercúrio ainda é dispositor de Júpiter, o regente de oito, e está sob o olhar de Marte, um māraka, senhor de doze (privações) e significador natural de acidentes.

Mas uma coisa que me chamou bastante a atenção também é o fato dele ter a conjunção de Saturno e Rāhu, ainda que com uma orbe folgada. Essa conjunção produz problemas de natureza vāta e, embora ele tenha se acidentado, isso comprometeu o seu movimento e fala, duas funções vāta. A conjunção de Saturno e Rāhu ainda está situada exatamente a meio caminho da oposição do Sol e da Lua, o que tenho certeza, é outro fator decisivo que influenciou o seu quadro atual. Isso ainda é reforçado pelo fato de Saturno ser o bādhakeśa, que além de conjunto a Rāhu, está sob influência do regente de oito e é o dispositor de Gulikā. Ou seja, temos praticamente a mesma indicação do bādhaka-sthana se repetindo com o bādhakeśa.

 

oṁ tat sat

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O regente do ano também é considerado no jyotiṣa?

Todos os anos vejo as pessoas citarem: “Esse é o ano do Sol”, “Ah, agora estamos sob a regência de Saturno”, “Agora com o ano da Lua, as pessoas ficarão mais sensíveis”, e coisas do tipo. Alguns até chegam a me perguntar se no jyotiṣa isso também é válido, pois essas regências são citadas pelos astrólogos modernos, em geral.

A verdade é que no jyotiṣa o conceito de regente do ano existe, sim. Bṛhat saṁhitā e Kālaprakaśika são dois textos clássicos que citam essa ideia, porém, seus métodos são divergentes e poucos astrólogos levam isso realmente a sério, pois é de natureza muito generalista.

A melhor maneira de se determinar o regente do ano, seria tomando por referência algo mais específico, como um país ou um indivíduo. No caso dos países, o método pode variar e ser bem complicado, mas no caso dos indivíduos, há um método simples e eficiente. Em Jaimini jyotiṣa eles denominam o senhor do ano como sendo o varṣācharya (vide Jātaka sāra saṅgraha), em tājika ele é inferido por meio do muntha, enquanto em Parāśara ele seria determinado por meio da técnica de sudarṣana-chakra.

Há algumas diferenças entre esses métodos, porém, o que julgo mais eficiente é o de Jaimini (o qual não difere em essência do método de Parāśara), que é, inclusive, o mesmo utilizado pela maior parte dos astrólogos helenísticos e medievais. Nesse método, o senhor do ano seria o senhor do signo destacado pela progressão anual, onde a cada ano o ascendente move um signo. Logo, de 0-1 ano de idade o senhor do ano é o senhor do ascendente, de 1-2 é o da casa dois, de 2-3 é o da casa três, e assim por diante.

Uma forma simples de calcular o varṣācharya é tomar a idade do indivíduo, subtrair múltiplos de 12 e acrescentar 1 ao que resta. Por exemplo, se alguém está com 32 anos, subtraindo múltiplos de 12 teremos 32 - 24 = 8, acrescentando +1 teremos 9, logo o senhor do ano seria, nesse caso, o senhor da nona casa. 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Quais são afinal as diferenças entre Parāśara e Jaimini?

Em vista das dúvidas que algumas pessoas acabam tendo quando digo que misturar Parāśara e Jaimini não dá certo nem é recomendado na literatura, eu decidi escrever esse esclarecimento. No caso, é importante entender o que cada um desses dois métodos de jyotiṣa tem como característico, antes de falarmos sobre as misturas.

Parāśarī jyotiṣa é, em outras palavras o método yavana (descrito no Yavana jātaka, Bṛhat jātaka, Sārāvalī, Horā makaranda, etc.) reformado. O que lhe distingue são os seguintes elementos:

Graha-dṛṣṭis olhares dos grahas.

Udu-daśās daśās calculadas a partir do nakṣatra ocupado por Chandra (Lua), como é o caso da viṁśottarī, aṣṭottarī, kālachakra daśā, etc.

Upagrahas – grahas secundários, como Gulikā, Dhūma, Upaketu, etc.

Yogas gaja kesari, śaṅkhā, kāhala, Lakṣmī, Sarasvatī yoga, etc.

Ṣaḍ-bala cálculo de forças.

Aṣṭakāvarga cálculo aplicado tanto a análise natal quanto também de trânsitos e daśās.

Natureza funcional – análise da natureza dos grahas conforme a regência que adquirem.

Āyurdāya o cálculo de longevidade em Parāśara é baseado em uma técnica envolvendo os regentes de um, oito e dez, assim como também nos métodos aṁśāyu, nisargāyu, etc.

Em suma, isso é Parāśarī jyotiṣa, pois é exatamente assim que Phaladīpikā, Jātaka pārījāta, Jātaka deśa marga, Sarvārtha chintāmaṇi e outros textos ligados a essa tradição representam o método Parāśarī.

Agora, em relação a Jaimini, o que distingue o método são os seguintes elementos:

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Um esclarecimento sobre os argalas

O conceito dos argalas é um dos menos explorados pelos astrólogos em geral. Além disso, há muitos equívocos quanto a sua utilização. Visando esclarecer isso, decidi escrever esse artigo, mas que já alerto, se destina a estudantes mais avançados ou aqueles que já tiveram algum contato com a técnica, mas ainda não sabem como ela realmente deve ser aplicada.

Em primeiro lugar, argala só foi realmente incorporado e praticado dentro do método de Jaimini, pois você não encontra essa técnica em nenhum dos textos da tradição Parāśarī. Quem afirma que no BPHS argala é citado, inclusive, provavelmente não sabe que o BPHS de hoje está cheio de interpolações, capítulos faltando e, em vista desses problemas, não é aceito como uma autoridade perfeita e inquestionável, especialmente no que se refere a Jaimini jyotiṣa. A primeira versão do BPHS, dos séculos VI-VIII, não cita argalas no seu índice, que foi por sinal apresentado pelo David Pingree em seu Jyotiḥ-śāstra, um respeitadíssimo livro acadêmico sobre a história da astrologia e astronomia na Índia.

Argala, na verdade, é um conceito que foi apresentado no Upadeśa sūtra (2.1.5-10) de Jaimini e expandido no Jyotiṣa phala ratna mala, Jyotiḥ pradīpikā e no Jātaka sāra saṅgraha, dentre outros textos da tradição de Jaimini jyotiṣa. Porém, a sua utilização não é tão simples, já que há muitas considerações a seu respeito e, inclusive, algumas divergências mesmo entre os autores clássicos sobre um ponto ou outro. No meu caso, a perspectiva que uso, depois de ter estudado suas variantes, foi a que aprendi com o Shanmukha Teli. Essa perspectiva é fiel as ideias clássicas, especialmente do JPRM e do JSS, já que o Jyotiḥ pradīpikā parte de ideias únicas sobre o assunto, mas pouco populares.

Esse artigo, no entanto, não visa ensinar como usar os argalas, pois considero que, ainda mais se tratando de argalas, meio conhecimento é mais perigoso que conhecimento algum. Jaimini não é tão fácil de apreender quando Parāśara (que por sinal já é muito difícil). Muito menos é um método que dá para discorrer facilmente por meio de posts na internet. Minha intenção com relação a esse artigo é simplesmente mostrar o que não é a abordagem clássica dos argalas e dar um indício de como essa técnica foi usada na tradição de Jaimini jyotiṣa. Se alguém a partir disso ainda assim decidir seguir uma visão outra, isso já é uma opção pessoal. O importante é ter consciência de como o conceito foi apresentado em Jaimini jyotiṣa.