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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Mantras e stotras

Nos jyotiṣa-śāstras há vários tipos de mantras e stotras recomendados para se pacificar os grahas. Inclusive, dentre todos os tipos de upāyas, nenhum é superior a mantra-japa, que mesmo na Gītā é elogiado como o maior de todos os yajñas (sacrifícios espirituais)[1]. Isso se deve ao fato de que os mantras tem a capacidade de libertar (trayate) a mente (manas) de suas aflições, como já está implícito na própria palavra mantra. Além do que, não existe nada dentro da realidade material mais sutil do que o som, o qual é um produto do ākāśa (éter/espaço), o primeiro dos elementos materiais e, portanto, aquele que mais está próximo da realidade transcendental.

Os mantras que encontramos menção nos clássicos de jyotiṣa são o mahāmṛtyunjaya, Viṣṇu sahasrānāma, Śiva sahasrānāma, Śrī Śrī Chaṇḍi path, Śrī sūkta, gāyatrī mantra, saṁtāna Gopāla mantra, śāntiḥ sūkta, Ādityā hṛdaya path, Durgā saptaśati path, assim como também japa de outros mantras dedicados à Śiva, Durgā, Lakṣmī e Viṣṇu ou mesmo aos navagrahas, sendo que esses últimos são conduzidos junto a uma cerimônia elaborada de hāvana (sacrifício de fogo), geralmente.

A verdade, no entanto, é de que não é necessário mudar a prática do mantra conforme o período que o indivíduo vivencia. Claro que há mantras com propósitos bastante específicos, mas há aqueles cujo propósito é absoluto, tais como o oṁkāra e harināma, portanto, basta que haja fé no mantra e na forma da Divindade a ele relacionada para que o indivíduo obtenha aquilo de que precisa. Um vaiṣṇava, por exemplo, invés de se recitar mantras dedicados aos devas e devīs, depositará a sua fé completamente em harināma, enquanto que um śaiva fará o mesmo em relação ao pañchākśarī Śiva mantra, um śakta, em relação aos mantras dedicados à Śakti, etc. Logo, o melhor é que cada um basicamente se fixe na sua própria adoração, consciente de que o seu iṣṭa-deva (divindade adorável) haverá de lhe prover toda a proteção e suporte necessário. Isso, no entanto, demanda śraddhā (fé) e uma conexão sincera com algum tipo de upāsana (disciplina tradicional), uma vez que guiar-se a partir das próprias especulações mentais nunca é uma opção inteligente.

oṁ tat sat 



[1]yajñanam japa-yajño ‘smi...”, Bhagavad gītā, 10.25

quinta-feira, 29 de março de 2018

K. N. Rao sobre "o que é graha śantīḥ ou pacificação dos planetas?"

Abaixo, apresento uma tradução das pgs. 147-148 do livro "Astrology, destiny and the wheel of time" escrito pelo K. N. Rao. Trata-se de um trecho do cp. 5 do livro, entitulado "A importância da pacificação dos planetas". Nele, K. N. Rao expõem em sete considerações o que a sua vasta experiência o levou a concluir a respeito dessa questão:

1.      Cada astrólogo tem a sua própria resposta a respeito do que é, realmente, graha-śantīḥ.

2.      Eu tenho uma resposta dupla para essa questão. Astrologicamente é possível ver se uma medida remediadora funcionará em um determinado caso ou não[1]. Em casos onde tais medidas não funcionarão, é dever moral de um astrólogo ajudar aquele que o consulta a re-obter a auto-confiança perdida. Isso pode ser feito não por meio de blefes, mas por preparar o consulente para que ele aceite os golpes do destino como a mais essencial disciplina da vida. Isso soará como pregação, mas em certos casos deve-se evitar a pregação e convencer o consulente por outros meios a respeito do porque ele deve aceitar o destino como inevitável em determinadas situações. Por seguir essa linha de pensamento, eu já criei controvérsias e inimigos.

3.      Se o consulente é um devoto genuíno, como no caso de Y. S. (uma pessoa que o K. N. Rao atendeu), o melhor remédio é pedir a ele que pratique sua adoração com mais intensidade. Afinal, se Deus não pode salvar, quem mais poderá ou irá?

4.      Aqueles que prescrevem jóias não sabem como e quando elas funcionam. Eles mantém conexões com alguns joalheiros os quais os oferecem comissões pelas vendas que realizam por meio da astrologia. Isso não é astrologia, mas uma raquete de negócios bem conhecida.

5.    Yantras podem funcionar, desde que sejam feitos por um adorador puro que os realize em dias astrológicos auspiciosos, conforme prescritos nas escrituras. Algumas das pessoas capazes de produzir yantras apropriados são raríssimos mahātmas. Astrólogos nem sequer sabem os segredos acerca de como produzir um yantra, mas para qualquer coisa que manufaturem eles já possuem um mercado pronto!

6.      Mahāṛṣi Parāśara (todos praticamos a astrologia de Parāśara, mas não recomendamos remédios de acordo com o que Parāśara prescreve) menciona apenas a recitação de mantras e dāna (caridades). Mas para os astrólogos mercenários, prescrever apenas o que Parāśara diz não é suficiente, visto que não seria rentável, comercialmente falando.

7.      O aconselhamento feito por bons psicólogos em alguns casos funciona bem, desde que isso não se torne também outro meio profissional mercenário. Um astrólogo com um bom conhecimento de psicologia pode fazer um uso muito efetivo desse conhecimento, dando os melhores aconselhamentos do mundo [devido a boa combinação que a psicologia pode formar com a astrologia, embora isso também possa destruir toda a objetividade característica de um astrólogo, sem a qual é impossível prever ou julgar um tema apropriadamente].




[1] K. N. Rao aponta algo importantíssimo nessa passagem. No entanto, vemos hoje um monte de astrólogos dizendo que qualquer configuração do mapa pode ser remediada e que é possível remover debilitações, combustões e tantas outras debilidades do mapa, incluindo até mesmo mudar a posição de um planeta! Isso é uma grande farsa. Os inocentes, aflitos e ignorantes caem nessa ladainha e ao invés de receberem previsões dos astrólogos (esse é o dever de um astrólogo e só dessa forma é que ele poderá recomendar remédios da forma apropriada), acabam recebendo um monte de "remédios", afinal, é mais fácil deixar o destino na mão do consulente e não lhe dar resposta alguma sobre o que irá, de fato, acontecer.