sábado, 22 de dezembro de 2018

Em março, curso online de fundamentos básicos do jyotiṣa

Entre os dias 11-15 de março abrirei uma turma para o curso online de fundamentos básicos do jyotiṣa, focando no método descrito por Varāhamihira em seu Bṛhat jātaka e que foi expandido na Sārāvalī, Phaladīpikā e Jātaka pārījāta, os quais integram os quatro principais textos de jyotiṣa. No entanto, complementaremos o estudo também com outras referências e textos que estejam de acordo com a tradição exposta nesses clássicos.

O curso terá extensão de cinco meses e abrangerá os seguintes tópicos:

1. Introdução ao jyotiṣa
2. Karma, reencarnação e destino (daiva)
3. Os doze signos (rāśis) e o āyanāṁśa (precessão dos equinócios)
4. Os nove planetas (grahas)
5. Olhares dos planetas (graha-dṛṣṭis)
6. Avaliando a força dos planetas (graha-bala)
7. As divisões de um signo (vargas)
8. As doze casas (bhāvas)
9. Kendras (1, 4, 7 e 10) & koṇas (5 e 9)
10. Upachayas (3, 6, 10 e 11), dusthānas (6, 8 e 12) & mārakas (2 e 7)
11. Natureza funcional dos planetas para cada ascendente
12. O processo de interpretação
13-19. Aulas práticas
20. Pacificação dos planetas (graha-śāntiḥ)

Com esse curso, o aluno poderá compreender como o cálculo e a delineação de um mapa são feitos, tornando-se assim apto a interpretar um horóscopo. No entanto, o aspecto preditivo, isso é, determinar quando um evento identificado na delineação se manifestará, não será abordado nesse curso, mas sim em um curso futuro, extensão desse.

Interessados no curso devem me comunicar via email (jyotishabr@gmail.com) até no máximo os últimos dias de fevereiro. O valor do curso é de R$ 1600,00 à vista ou 5x de R$ 350,00. As aulas são semanais, dadas via plataforma de vídeo conferência (gobrunch.com), serão todas gravadas em áudio e enviadas por email. Além disso, o curso inclui PDFs e mapas para exemplificação.

A data de início do curso ficará entre os dias 11-15, justamente porque iremos escolher um dia e horário que seja compatível para todos, no entanto, quem não puder comparecer as aulas online, como foi dito acima, receberá as gravações, logo, não é estritamente necessário comparecer as aulas.

Serão incluídas também no curso referências bibliográficas, artigos diversos, outros tipos de materiais complementares ao ensino, grupo no face e um chat para esclarecimentos de dúvidas. Além disso, enviarei a todos um arquivo contendo os principais textos clássicos em PDF para consultas ao longo do curso.

oṁ tat sat

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

O impacto das quinzenas do mês lunar sobre um horóscopo

Na Mānsagarī são descritos (cp. 1) os resultados de nascimentos ocorrendo nos dois pakṣas ou quinzenas do mês lunar, śukla kṛṣṇa:

"Aquele que nasce em śukla-pakṣa (quinzena brilhante, da fase nova à cheia) será brilhante como Chandra, rico, industrioso, versado em muitos śāstras, eficiente e educado.

Quem nasce em kṛṣṇa-pakṣa (quinzena escura, da fase cheia à nova) será cruel, mal-humorado, hostil às mulheres, obtuso, dependerá da misericórdia de outros e terá uma grande família."

O Yavana jātaka, por sua vez, diz o seguinte:

"O indivíduo que nasce em śukla-pakṣa deterá longevidade e terá muitos filhos. Será atencioso para com as necessidades e interesses de seu povo, benevolente, afável, uma pessoa respeitável, mas que viverá sobre o controle de sua esposa.

Aquele que nasce durante kṛṣṇa-pakṣa será habitualmente indolente, desleixado, buscará falhas nos outros e se valerá de uma linguagem áspera e impura."

Por fim, outro clássico que descreve os resultados dos pakṣas é o Jātaka pārījāta, que diz:

"O nascido durante śukla-pakṣa será muito eminente, rico, virtuoso e misericordioso.

Quem nasce em kṛṣṇa-pakṣa perseguirá os seus próprios interesses, será devotado a sua mãe, mas não demonstrará afeto pelos demais parentes."

Basicamente, todos os autores concordam quanto ao fato de que śukla-pakṣa outorga bons resultados, enquanto kṛṣṇa-pakṣa é fonte de maus resultados. No entanto, Chandra é especialmente fraco durante o quarto minguante, que vai de kṛṣṇa aṣṭāmi (oitavo dia lunar da quinzena escura) à śukla pratipad (primeiro dia da quinzena brilhante), sendo que em kṛṣṇa-chaturdaśī (décimo quarto dia da quinzena escura) e em āmāvāsya, Chandra outorga os piores resultados, pois essas duas tithīs (dias lunares) são classificadas nos clássicos como doṣas (defeitos ou desarmonias que afetam o jātaka de maneira integral).

domingo, 16 de dezembro de 2018

Do vedāṅga ao vedānta

As experiências que vivenciamos neste mundo são todas orquestradas pelos três guṇas (qualidades da natureza), a saber, rajas (paixão), sattva (bondade) e tamas (obscuridade). Inclusive, os três invólucros da ātmā (alma), o corpo grosseiro (sthula-śarīra), sutil (sukṣma-śarīra) e causal (karaṇa-śarīra), os quais podem ser experimentados nos estados de vigília, sonho e sono profundo, são todos parte da prakṛti (a natureza material), ou seja, estão sob o jugo de sattva, rajas e tamas.

O seguinte śloka da Bhagavad gītā (13.20) evidencia isso, pois diz:

prakṛtiṁ puruṣaṁ caiva viddhy anādī ubhāv api |
vikārāṁś ca guṇāṁś caiva viddhi prakṛti-sambhavān ||

"Saiba que ambos, prakṛti e jīva [o ser vivo], não possuem origem [são eternos]. Saiba também que o corpo, os sentidos, a felicidade e o sofrimento, manifestam-se todos a partir da prakṛti, não do jīva."

Já o śloka (7.4) abaixo, também da BG, esclarece do que prakṛti se constitui, incluindo não só a matéria grosseira como também sútil:

bhūmir āpo 'nalo vāyuḥ
khaṁ mano buddhir eva ca
ahaṅkāra itīyaṁ me
bhinnā prakṛtir aṣṭadhā

"Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e o falso ego, juntos constituem as oito divisões da Minha prakṛti [energia material]."

Ou seja, os três corpos, os sentidos e as experiências alegres e tristes são todas produzidas pela prakṛti, cuja natureza em nada difere dos três guṇas e dos oito tattvas (elementos) acima mencionados. O jīva em si não é a causa desses eventos. Inclusive, o elemento que desencadeia todas essas experiências latentes na prakṛti é o kāla (o tempo), outro elemento eterno, o qual também pode ser reconhecido como daiva (o destino) ou Paramātmān (a Superalma onipresente ou o Deus imanente), que na Bhagavad gītā (18.14), Śrī Kṛṣna se refere como sendo o quinto fator causal por detrás de todas as ações.

domingo, 2 de dezembro de 2018

A casa dos filhos em horóscopos femininos é a cinco ou a nove?

Recentemente uma pessoa veio desafiar uma análise que fiz sobre o tema filhos a partir de um horóscopo feminino, dizendo que é a partir da nove e não da cinco que se vê os filhos em um horóscopo feminino. De fato, podemos encontrar essa afirmação em três textos clássicos: Horā sāra, Jātaka pārījāta e Phaladīpikā, enquanto que no Bṛhat jātaka, Sārāvalī e no BPHS o contrário é indicado, ou seja, que a casa dos filhos é a cinco para ambos os gêneros.

Inclusive, embora no Jātaka pārījāta seja mencionada a nove como sendo a casa dos filhos em horóscopos femininos, Vaidyanātha afirma educadamente que há outros astrólogos que optam por usar a cinco. Ou seja, há uma divisão de visões entre os astrólogos e eu sempre estive bem ciente disso. Optei por usar a cinco para filhos nos mapas femininos não por ignorância, mas pelos seguintes fatores:

(1) A cinco representa o ventre, enquanto a nove representa as coxas. Gestações se dão no ventre e não nas coxas, obviamente. Também não faria sentido dizer que o ventre em mapas femininos é indicado pela nove, pois isso quebraria com a ordem natural das casas e das partes do corpo por elas representadas.

(2) Se a nove é a casa dos filhos em mapas femininos, será também a casa do alunos/discípulos. Nesse caso, onde ficaria o guru/professor, tema natural da nove? Na cinco? Ou teríamos filhos, discípulos e o guru todos na mesma casa? Isso também não faz sentido algum.

(3) A nove é a cinco da cinco, ou seja, ela tem impacto sobre os temas de cinco, assim como a três tem sobre os da oito (sendo a oito da oito), a nove nos temas de onze (sendo a onze da onze), etc. Dessa forma, tanto em horóscopos masculinos quanto femininos a nove pode ser usada para analisar filhos, mas apenas como uma indicação secundária e nunca como uma indicação primária, uma vez que a nove, sendo a cinco da cinco, é em primeiro lugar a casa dos netos e não dos filhos. Na minha opinião, a confusão a respeito do tema se deve exatamente a essa derivação.

Além desses fatores, tem outro muito mais significante: os exemplos práticos em si. Estudei dezenas de casos somente para escrever esse artigo, considerando também a minha experiência prévia, portanto apresento aqui alguns desses casos que deixam mais do que claro que é a cinco que trata de filhos tanto em horóscopos masculinos quanto femininos, algo que B. V. Raman e K. N. Rao, os dois maiores nomes do jyotiṣa contemporâneo também concordam e exemplificam abundantemente em seus livros.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Aula sobre Gulika entre os dias 10-14 de dezembro

Entre os dias 10-14 de dezembro (o dia será decidido com os alunos) darei uma aula online de 1h30min, aproximadamente, sobre Gulika, o mais importante dos upagrahas - grahas secundários -, também denominados aprakaśa-grahas - grahas desprovidos de luz.

Como todos os upagrahas, Gulika é apenas um ponto matemático (sphuṭa), no caso, aquele que demarca o exato momento em que tem início Śani kāla, o período do dia ao qual Śani (Saturno) tem regência. Esse momento varia, de acordo com o dia da semana em questão.

Os tópicos abordados na aula serão:

1. O que é Gulika?
2. Há diferenças entre Gulika e Mandi?
3. Sobre a natureza de Gulika e seu impacto sobre as casas e grahas
4. Rāja yoga envolvendo Gulika
5. Gulika e adoção de filhos
6. Gulika e o bādhaka-sthana
7. Doenças e outros males relacionados a Gulika
8. Gulika enquanto um māraka (assassino)

Naturalmente, exemplos serão dados para ilustrar os tópicos abordados ao longo da aula. Interessados em participar do curso devem me contatar por email (jyotishabr@gmail.com) até o dia 5 de dez., próxima quinta feira. A aula é online, será ministrada via gobrunch.com e seu valor é de R$ 150,00, incluindo a gravação em áudio da aula e indicação de bibliografia para estudo.

oṁ tat sat

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Observações tradicionais sobre Budha

Estudando os principais textos de jyotiṣa, notei que na caracterização de Budha (Mercúrio), incluí-se, além de atributos já bem conhecidos, como a habilidade com a oratória e sua vasta educação, também o apreço pelo sexo oposto e uma natureza janota, isso é, que se preocupa em excesso com suas vestes.

Essas características não são, em geral, esperadas de um graha como Budha, mas sim de Śukra (Vênus). No entanto, relembrando alguns casos, vejo que há sim bastante coerência no que é dito entre os autores clássicos. Possivelmente esses atributos de Budha estariam relacionados ao fato dele ser, dentre os grahas, aquele que representa os príncipes (já arquetipicamente pomposos), além de ser também, assim como Śukra, um graha de natureza rajasika, ou seja, cuja natureza é apaixonada e egocêntrica.

Balabhadra, por exemplo, em seu Horā ratna diz que o lagna situado no triṁśāṁśa de Budha tornaria o indivíduo altamente egoísta e dado a sensualidade. Ele inclusive diz que aquele que nasce com tal lagna-triṁśāṁśa seria "interessado em mulheres divinas, ornamentos, flores e aromas".

Um exemplo interessante é David Bowie[1], o qual possuía o lagna à 10º de capricórnio, ou seja, no triṁśāṁśa de Budha, o qual também é ocupado por Chandra (Lua), Śukra (Vênus), Sūrya (Sol) e Maṅgala (Marte) em seu jātaka, ou seja, todos os significadores pessoais (lagna, Chandra e Sūrya), fora os dois significadores sexuais (Śukra e Maṅgala). David Bowie era bissexual, viveu incontáveis relações sexuais e sempre esteve em meio ao luxo e ao glamour, além de deter também outras das características naturais de Budha, como a eloquência, a educação, a habilidade artística, a jovialidade, o bom humor e o raciocínio rápido e aguçado.

Outro exemplo é o cantor Prince[2], que possuía o lagna no drekkāṇa e triṁśāṁśa de Budha, o qual, por sinal, ocupa seus próprios signos no drekkāṇa, dvādaśāṁśa e triṁśāṁśa. Assim como David Bowie, Prince também era bissexual, janota e uma estrela da música, enfim, alguém que representava muito bem uma série de características arquetípicas de Budha.

oṁ tat sat



[1] Nasc.: 08.01.1947 às 08:59 em Brixton, Londres.
[2] Nasc.: 07.06.1958 às 18:17 em Minneapolis, Minnesota.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Curso em dezembro sobre o dvādaśāṁśa e o triṁśāṁśa

Entre os dias 10-14 de dezembro darei um curso sobre os últimos dois vargas do sistema denominado ṣaḍvarga - de seis divisões -, ou seja,  sobre  o dvādaśāṁśa e o triṁśāṁśa, divisões de doze e cinco partes, respectivamente.

Abaixo apresento os tópicos que serão abordados para cada um desses vargas:

DVĀDAŚĀṀŚA
1.0. História, conceito e cálculo
1.1. Divindades
2.0. Interpretação
2.1. Horóscopo pré-natal
2.2. Caracterização pessoal
2.3. Graha-phalam (os resultados dos grahas nos dvādaśāṁśas)
2.4. Āyurdāya (desvendando a longevidade)
2.5. Técnicas helenísticas
2.6. Retificação do horário de nascimento

TRIṀŚĀṀŚA
1.0. História, conceito e cálculo
1.1. Divindades
2.0. Interpretação
2.1. Strī-jātaka (horóscopo feminino)
2.2. Graha-phalam (os resultados dos grahas nos triṁśāṁśas)
2.3. Bala (a contribuição de força do triṁśāṁśa)
2.4. Determinação do guṇa e da natureza individual
2.5. Ariṣṭas (misérias)

Todo o material que irei apresentar no curso está apoiado em referências clássicas, que no caso, incluem Bṛhat jātaka, Sārāvalī, BPHS, Phaladīpikā, Jātaka pārījāta, Sarvārtha chintāmaṇi e Mānsagarī, fora outras referências da astrologia helenística que usei para mostrar como o dvādaśāṁśa também foi utilizado nessa tradição com o nome de dodecatemoria. No caso, das técnicas que a astrologia helenística apresenta, uma delas é de origem indiana, enquanto a outra segue a mesma ideia do método rāśi-tulya-navāṁśa.

Interessados em participar do curso devem me contatar via email (jyotishabr@gmail.com) ou whatsapp (12996242742) até no máximo o dia 5 de dezembro. O valor das aulas é de R$ 300,00 e compreenderá três aulas de 1h30min, aproximadamente, com PDFs para estudo, dezenas de mapas para exemplificação e a gravação em áudio do encontro online, que se dará por meio do "gobrunch.com". Os dias e horários serão combinados com os participantes.

oṁ tat sat

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Encontros mensais de jyotiṣa

A partir do mês de novembro, começarei a realizar um encontro online mensal para discutir um tema avulso de jyotiṣa - o que inclusive pode ser sugerido pelos participantes. Nesses encontros não teremos PDFs, mas todas as aulas serão gravadas, também teremos exemplos e referências bibliográficas para que o tema seja bem assimilado.

Interessados em participar devem me comunicar via email (jyotishabr@gmail.com) ou whatsapp (12996242742) até o dia 9 de novembro de 2018, pois o primeiro encontro se dará no dia 12 de novembro. Aqueles que não puderem comparecer, receberão a gravação em áudio e poderão esclarecer dúvidas posteriormente.

O tema desse encontro será como avaliar um yoga em um horóscopo, uma vez que para um mesmo yoga podem haver incontáveis variações. Por exemplo, Chandra Maṅgala yoga pode se dar de duas maneiras, por conjunção e oposição entre a Lua e Marte nos doze signos, o que gera vinte e quatro tipos de Chandra Maṅgala yoga, isso quando ignoramos os tantos outros elementos que podem incidir sobre um yoga.

Nesse encontro, portanto, aprenderemos a considerar as variáveis de um yoga, para que análises mais precisas possam ser realizadas. Isso incluirá, naturalmente, considerar fatores que geram bhanga, isso é, a anulação de um determinado yoga.

O valor desse encontro, assim como dos demais, será de apenas R$ 150,00. O tempo de duração de cada encontro é de aproximadamente 90 minutos. Seguirei mantendo publicações mensais que comunicam quando cada encontro se dará e de que tema irá tratar.

oṁ tat sat

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Um pouco da história dos zodíacos tropical e sideral

Resultado de imagem para babylonian astrologerEm seu 'Primer of Sideral Astrology', Cyril Fagan menciona que o zodíaco tropical, ao que tudo indica, foi teorizado por Posidonius de Apameia, um discípulo de Hipparchus que parece ter vivido de 130 a 51 a.C., sendo que posteriormente Ptolomeu, de acordo com os defensores do zodíaco tropical, teria aderido a essa visão. O argumento de Cyril Fagan, no entanto, é de que esse é um engano e Ptolomeu, na verdade, seria um sideralista, pois além dele usar das referências visuais das constelações em seu Tetrabiblos (algo inaplicável com o zodíaco tropical), à sua época o ponto vernal estava praticamente alinhado a 00º00' de áries, daí de muitos terem assumido que Ptolomeu seria um adepto do zodíaco tropical.

Fagan ainda cita que dos 180 horóscopos gregos que restaram até os dias atuais, mais de dois terços desses é anterior a Ptolomeu, enquanto o terço restante é posterior a ele, porém, desses horóscopos todos, pouquíssimos foram calculados usando o zodíaco de Ptolomeu. Eles ou tomavam por referência o sistema A ou o sistema B, dois zodíacos denominados tropicais, mas que originalmente eram zodíacos siderais. Porque? No sistema A o ponto vernal está fixado em 10º de áries, enquanto no sistema B em 8º de áries, ambas coordenadas encontradas em tábuas astronômicas que adentraram a Grécia entre 331-327 a.C., através de Callisthenes e que foram compostas por dois dos maiores astrônomos da Babilônia: Naburianos (Naburiannu) em 508 a.C. e por Cidenas (Kidinnu) em 373 a.C., respectivamente.

sábado, 6 de outubro de 2018

O mapa revela vidas passadas e futuras?

Me lembro que no começo dos meus estudos de astrologia, uma das coisas que me intrigou no jyotiṣa, causando curiosidade, foram os boatos de que por meio dele seria possível ter informações detalhadas sobre a vida passada e futura. Porém, conforme fui estudando, pude perceber que esse era em grande parte um mito.

Varāhamihira, em seu Bṛhat-jātaka (século VI), por exemplo, apresenta um método [ao que tudo indica assimilado de astrólogos anteriores] pelo qual se poderia decifrar tanto o nascimento passado quanto futuro[1], no entanto, trata-se de uma abordagem especulativa e limitada. O nascimento passado seria determinado pelo senhor do drekkāṇa de Sūrya ou Chandra, qual detivesse mais força, enquanto o nascimento futuro se determinaria por meio do graha mais forte a ocupar a seis ou a oito e, caso nenhum graha ocupe tais casas, então o mais forte entre os senhores do drekkāṇa da seis e da oito é que determinaria o nascimento futuro.

Sūrya e Maṅgala indicariam que o indivíduo estaria destinado a renascer na Terra; Chandra e Śukra, o destinariam à pitṛ-loka (o plano onde residem os ancestrais); Guru à deva-loka, enquanto Budha e Śani, à naraka (planos infernais). No caso, esses mesmos locais relacionados a cada graha são usados como referência para determinar o nascimento passado.

Essa técnica, posteriormente foi mencionada também no pūrvakhaṇḍa do BPH (século VI-VII), em um cp. dedicado a determinação do māraka (o graha responsável pela morte), mas dessa vez apresentando uma variação: o nascimento futuro também poderia ser determinado por grahas que ocupassem as casas sete e doze, ao invés de se considerar apenas as casas seis e oito. No entanto, da Sārāvalī (séc. VIII) de Kalyāṇa Varman em diante, essa técnica não foi mais mencionada. Inclusive, Kalyāna, embora tenha se referido ao Bṛhat jātaka como uma referência importante, não apresenta em seu livro qualquer técnica que vise determinar o nascimento passado ou futuro, o que pode revelar uma certa desconfiança de sua parte em relação a técnica de Varāhamihira.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Avaliando as condições de um graha

No Jātaka pārījāta, śloka 34 do segundo adhyāya, afirma-se o seguinte:

"Grahas desprovidos de olhares ou conjunções dos benéficos não se mostrarão auspiciosos se estiverem debilitados, conjuntos ou sob o olhar de maléficos ou grahas inimigos, nos vargas de maléficos, nos sandhis (junções entre um signo e outro), detendo poucos pontos no aṣṭakāvarga, ocupando as porções negativas de um signo, combustos ou subjugados em um graha-yuddha (guerra planetária)."

COMENTÁRIO

A influência de um graha benéfico, como indicada nesse śloka, é capaz de converter um graha em condição indesejável em um graha auspicioso. No entanto, para que isso se dê, tal benéfico deve deter força superior. A isso dá-se o nome de ariṣṭa-bhanga, a nulificação de um infortúnio.

São grahas em condições como essa, ou seja, aflitos mas sob intervenção de um benéfico que podem demonstrar melhoras significativas pela utilização de um upāya (medida remediadora), o que geralmente se dará durante a sua daśā ou durante a daśā do graha benéfico a ele relacionado, assim como quando em certos trânsitos, especialmente de Guru no trikoṇa (1, 5 e 9) do graha aflito.

Uma situação contrária a essa, tal como descrita no śloka, impede o graha de manifestar bons frutos, não importando o esforço empreendido para rebater tais influências. O máximo que pode ocorrer é que ele manifeste alguns bons resultados durante trânsitos benéficos que venham a influenciá-lo, assim como se detiver alguma força ou elemento de auspiciosidade.

Para um graha manifestar resultados completamente negativos, ele deve sofrer com aflições diversas simultaneamente: combustão, debilitação, ocupação de vargas maléficos (ar, le, es, cp e aq), ṣaṣṭāṁśa, nīdhanāṁśa ou vyayāṁśa, influência de maléficos, posicionamento em um gaṇḍānta, em vipat, pratyak, naidhana ou vaināśika-tārā, baixa pontuação no aṣṭakāvarga, pāpa-kartari, graha-yuddha, a fraqueza de seus dispositores, a ocupação de um dusthāna, influência dos senhores de dusthāna ou de grahas inimigos, ocupação de sarpa ou nigala-drekkāṇa, krūra-ṣaṣṭyāṁśa, etc.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Uma breve história da astrologia natal indiana (jātaka)

"Um astrólogo", Tanjore, 1805
A história do jātaka, ramo do jyotiṣa que lida com a genetialogia, ou seja, o estudo de uma natividade/horóscopo, ao invés de ter se iniciado a milhares de anos atrás no período védico, teve início no século II d.C., com um tratado de características predominantemente helenísticas chamado Yavana jātaka, que ingressou na Índia e foi traduzido à época de Kṣatrapa Rudradāman pelo líder da comunidade grega, Yavaneśvara, em Ujjayinī. Posteriormente, esse mesmo texto foi versificado por Sphujidhvaja, em 269/270 d.C., durante o reinado de Kṣatrapa Rudrasena II.

No século seguinte, entre 300-325 d.C., à época de Rudrasiṃha II ou Yaśodāman II, o astrólogo Yavanādhirāja Mīnarāja compôs o Vṛddha yavana jātaka, baseando-se no Yavana jātaka de Yavaneśvara e no tratado perdido de Satyācharya, um astrólogo que só podemos conhecer parcamente através de alguns poucos ensinamentos seus preservados nos clássicos, mas que foi muitas vezes citado.

Já no século VI, Varāhamihira é o astrólogo que se destaca e, entre ele e Mīnarāja, ao que tudo indica, existiram também outros astrólogos como Maya, Maṇittha, Śaktipūrva (Parāśara, mas que não parece ser o mesmo do BPH), Devasvāmin, Viṣṇugupta, Siddhasena, Jīvaśarman, Bādarāyaṇa e Māṇḍavya, pois esses nomes são mencionados por Varāhamihira em seus tratados, Bṛhat saṃhitā e Bṛhat jātaka. Inclusive, pode-se dizer que o grande marco do jyotiṣa foi Varāhamihira, em especial, devido ao seu Bṛhat jātaka, no qual praticamente todos os astrólogos do período medieval se basearam para escrever os seus tratados.

sábado, 15 de setembro de 2018

Sobre o aprendizado tradicional

Nos Yoga-sūtras de Patañjali ṛṣi, é dito (1.6) que a consciência (citta) passa por cinco tipos de modificações (vṛttis): conhecimento correto (pramāṇa), ilusão ou conhecimento errôneo (viparyaya), fantasia (vikalpa), sono (nidra) e memória (smṛti). Desses, o conhecimento correto, o sono e a memória são úteis no aprendizado, enquanto a ilusão e a fantasia são inúteis e devem ser removidos pelo cultivo de pramāṇa, o qual se subdivide em três tipos de acordo com os Yoga-sūtras (1.7): percepção direta (pratyakṣa), inferência lógica ou dedução (anumāna) e o testemunho das autoridades e das escrituras (āgama).

Alguém então pode se perguntar sobre qual seria a relevância desse tema para o jyotiṣa. Bem, a resposta é de que não é relevante para o jyotiṣa... é relevante para tudo! Qualquer coisa que passe pela mente pode ser categorizada como uma das cinco vṛttis, logo, quando estudamos jyotiṣa, essas mesmas vṛttis estarão atuando sobre a consciência e, portanto, interferindo no aprendizado.

Um exemplo pode nos ajudar a compreender isso melhor: um estudante deseja saber como ele pode prever se uma mulher poderá engravidar ou não e, para isso, ele inicialmente recorre a dedução (anumāna), que é uma das três formas de pramāṇa. Essa dedução, no entanto, pode ser imprecisa, ou seja, uma ilusão ou conhecimento errôneo (viparyaya). Também é possível que tal dedução não passe de uma grande fantasia (vikalpa), algo completamente fora da realidade do próprio jyotiṣa, ao invés de se tratar de um erro de julgamento envolvendo regras já existentes. Portanto, como tal estudante poderá resolver esse problema, uma vez que ele compreendeu que pode estar iludido ou fantasiando meios incorretos de prever o tema filhos? Ele deverá recorrer a āgama, ou seja,  o testemunho das autoridades e das escrituras.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Ingresso de Guru (Jup) em escorpião no dia 11 de outubro de 2018

Dia 11 de outubro deste ano, Guru ingressará escorpião (vṛśchika). Ele segue transitando esse rāśi até 28 de março de 2019, quando então adentra sagitário (dhanu), mas devido a sua retrogradação, retorna a escorpião em 23 de abril de 2019, permanecendo no signo até 4 de novembro de 2019. Ou seja, por aproximadamente um ano inteiro teremos Guru transitando escorpião.

A tendência natural é que as pessoas busquem por respostas fáceis quanto ao impacto desse trânsito sobre suas vidas. No entanto, não há respostas fáceis. Cada caso é completamente singular e só pode ser interpretado levando-se em consideração uma grande gama de fatores, como por exemplo:

(1) A casa transitada por Guru à partir de Chandra (Lua), sendo que os trânsitos dele pela dois, cinco, sete, nove e onze são considerados auspiciosos. Em outras palavras, Guru em escorpião tende a dar bons resultados para aqueles que possuem Chandra em touro, câncer, libra, capricórnio e peixes.

(2) A casa transitada por Guru à partir do lagna (asc.), onde os trânsitos pela um, dois, quatro, cinco, seis, sete, nove, dez e onze são tidos como auspiciosos. Ou seja, as pessoas que possuem lagna em touro, gêmeos, câncer, leão, libra, escorpião, capricórnio, aquário e peixes estão inclinados a se beneficiar desse trânsito.

(3) Os dṛṣṭis (olhares) que Guru lança as casas cinco, sete e nove a partir de si mesmo, ou seja, sobre os signos de touro, câncer e peixes, os quais serão agraciados com seu olhar e, portanto, tendem a ser beneficiados. Um exemplo: se Guru transita a seis do lagna, isso quer dizer que ele lançará dṛṣṭis as casas dois, dez e doze, logo, essas casas tendem a se beneficiar disso, uma vez que Guru é um benéfico natural e traz consigo oportunidades, expansão e otimismo sobre aquilo que influencia.

(3) A combinação do trânsito de Guru tanto a partir de Chandra quanto do lagna, o que faz com que esses trânsitos sejam especialmente benéficos para quem possui ambos os lagnas ocupando touro, câncer, libra, capricórnio ou peixes. No caso, Chandra pode estar em touro e o lagna em libra ou Chandra em capricórnio e o lagna em peixes, etc., qualquer variação é válida.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Curso sobre o horā e o drekkāṇa, na primeira semana de out.

Na primeira semana de outubro darei um curso sobre dois vargas: horā e drekkāṇa, divisões de um signo em duas e três partes, respectivamente. O curso seguirá aquilo que é mencionado nos clássicos a respeito desses dois vargas e sua utilidade em um estudo, contendo vastas referências.

O conteúdo do curso inclui:

Horā
1.      Horā: conceito e cálculo
2.      Divisões: pitṛs e devas
3.      Interpretação

Drekkāṇa
1.      Drekkāṇa: conceito e cálculo
2.   Divisões: Agastya, Nārada e Durvasa
3.    Categorias de drekkāṇa (sarpa, pakṣī, nīgada, etc.)
4.      Divisão do corpo em trinta e seis drekkāṇas
6.      22º drekkāṇa e seu senhor
7.      Nascimento pregresso e futuro
8.      Regras adicionais de interpretação
9.      Retificação do lagna a partir do drekkāṇa.

O curso é online e será dado via gobrunch.com, sendo que todas as aulas serão gravadas em áudio, logo, mesmo que alguém não possa comparecer, terá acesso a todo o material. As datas e horários serão marcados com todos os alunos, mas por hora posso dizer que teremos entre três aulas de no máximo 2hrs de duração.

Interessados devem me contatar via email (jyotishabr@gmail.com) ou facebook (facebook.com/jyotisha.com.br) e realizar o depósito até no máximo o dia 1 de outubro. O valor do curso é de R$ 300,00 e inclui tanto os encontros online, gravações em áudio quanto também PDF e dezenas de mapas para estudo. 

oṁ tat sat

domingo, 5 de agosto de 2018

Em 15.08, curso sobre como utilizar o navāṁśa

Dentre os vargas (divisões), nenhum é tão extensamente mencionado nos clássicos e mesmo entre astrólogos contemporâneos quanto o navāṁśa. Inclusive, muitos astrólogos realizam suas análises valendo-se apenas do mapa natal (rāśi) e do navāṁśa. Nesse curso, explicarei como o navāṁśa deve ser utilizado, seguindo estritamente o que textos padrão como Bṛhat jātaka, Phaladīpikā, Sārāvalī, Jātaka pārījāta e outros mencionam.

Inclusive, nesse curso mostrarei como um varga não é um mapa à parte, mas apenas uma extensão das próprias posições dos grahas no mapa natal. Ou seja, o navāṁśa não é um mapa com casas, conjunções, aspectos, etc., mas apenas uma divisão dentro da posição de um graha em um signo. Essa é a abordagem clássica e, portanto, vou me fixar nela para dar esse curso.

Os tópicos a serem abordados são:

1. Navāṁśa: conceito e cálculo
2. Divindades: Deva, nṛ e rākṣasa
3. Forças: vargottamāṁśa; puṣkarāṁśa; nīcha e ucchabhanga; saumya e krūra navāṁśas
4. Detalhando os efeitos de um graha
5. Rāśi tulya navāṁśa (a sobreposição dos navāṁśas dos grahas no rāśi)
6. Dispositores do navāṁśa
7. Casamento: determinando a natureza da(o) esposa(o)
8. Julgando outros temas
9. Retificação a partir do navāṁśa ocupado pelo lagna
10. Como usar o navāṁśa para prever através dos trânsitos e daśās

O curso é online, terá início no dia 15 de agosto de 2018 e será dado via gobrunch.com, sendo que todas as aulas serão gravadas em áudio, logo, mesmo que alguém não possa comparecer, terá acesso a todo o material. As datas e horários serão marcados com todos os alunos, mas por hora posso dizer que teremos três aulas de no máximo 2hrs de duração. Interessados no curso devem me contatar via email (jyotishabr@gmail.com) ou facebook (facebook.com/jyotisha.com.br) e realizar o depósito até no máximo o dia 13 de agosto.

O valor do curso é de R$ 300,00 (o que equivale a R$ 100,00 por aula) e inclui tanto os encontros online, gravações em áudio quanto também PDF e mapas para estudo. 

oṁ tat sat

quinta-feira, 19 de julho de 2018

A abordagem clássica dos vargas (divisões)

Após anos estudando os vargas (divisões), testando diferentes cálculos, técnicas e investigando a fundo o que é dito nos clássicos a respeito, a conclusão a que cheguei foi de que o uso dos vargas, enquanto mapas individuais é uma abordagem moderna. Se nos referimos ao Bṛhat jātaka ou mesmo a textos mais recentes como o Jātaka pārījāta, fica evidente, por meio desses, que os vargas eram usados apenas como divisões de um signo e não como mapas individuais com casas, conjunções e olhares entre os grahas.

Basicamente, as técnicas mencionadas entre os autores clássicos, giram em torno do seguinte:

(1) Especificar mais detalhadamente os resultados de um graha, combinando o signo ocupado no rāśi com o horā, drekkāṇa, saptāṁśa, navāṁśa, dvadaśāṁśa, ṣoḍaśāṁśa, triṁśāṁśa ou ṣaṣṭyāṁśa ocupado pelo mesmo. No caso, ênfase especial ao horā, drekkāṇa, navāṁśa, triṁśāṁśa e ṣaṣṭyāṁśa são encontradas nos clássicos. Quanto aos demais vargas, ou são mencionados em alguns raros casos ou então nem sequer encontramos exemplos de sua aplicação.

(2) Analisar a situação do dispositor do navāṁśa, drekkāṇa ou outro varga ocupado por um graha, a fim de delinear melhor os seus resultados. Um exemplo clássico é notar o senhor do navāṁśa ocupado pelo senhor da dez e a partir disso delinear o tipo de carreira que o indivíduo tenderá a seguir. Se o senhor da dez ocupa um navāṁśa de sagitário ou peixes, p. e., os temas de Guru influenciarão a sua carreira e, portanto, pode-se notar a posição de Guru no jātaka para uma delineação ainda mais precisa. Essa técnica da análise do dispositor é especialmente usada em relação ao navāṁśa, sendo raramente considerada com outros vargas.

(3) A técnica conhecida como 
rāśi-tulya-navāṁśa, em que o signo ocupado pelo graha não só no rāśi como também no navāṁśa é tomado como referência no rāśi para julgar melhor os seus efeitos gerais.