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domingo, 13 de agosto de 2023

Dia dos pais, e uma reflexão sobre Sūrya (Sol)

Hoje é dia dos pais, logo, convém falar a respeito de Sūrya (Sol), o pitṛ-kāraka (significador do pai). Dentre os grahas, Sūrya é considerado o líder, afinal, o sistema é SOLAR e nenhum graha tem uma dimensão sequer próxima a dele. Todos os tratados clássicos de jyotiṣa, inclusive, são iniciados com um maṅgala-caraṇa (invocação auspiciosa) dedicado a Sūrya-deva. Dois bons exemplos são:

Sūrya, o criador, floresce supremo enquanto a fonte do universo e a natureza desse. Ele é o ornamento natural do firmamento, enfeitado com incontáveis raios semelhantes ao ouro derretido. – Bṛhat-saṁhitā

Glória a Sūrya-deva, cuja mera expiração cria este mundo; cuja ascensão desperta todos os seres vivos; cujo zênite acentua as atividades de todos, e cujo ocaso conduz os seres ao sono. A eficácia de Sūrya-deva se espalha por toda parte. – Sārāvalī

As dedicatórias a Sūrya constantes nos śāstras de jyotiṣa se devem ao fato dele ser a fonte desse conhecimento, afinal, dias e anos são calculados com base em Sūrya, e as posições de todos os grahas visíveis podem ser estudadas graças à luminosidade de Sūrya que eles refletem. Além disso, Sūrya é o significador da visão e da consciência, sem as quais não poderíamos enxergar nem ter percepção de nada. Logo, tudo o que há de mais fundamental para a nossa existência se relaciona simbolicamente a Sūrya. Por exemplo, a nível físico, ele representa asthi-dhātu, a ossatura, a unidade mais básica do corpo, onde todo o mais se apoia. Em uma sociedade, ele representa o governo/o rei. Na constituição pessoal, ele é o próprio ātman (alma), que vivifica o intelecto, a mente, o corpo e os sentidos. Na numerologia, ele é o número 1, e em uma família, ele é o pai, e como bem diz Śrī Kṛṣṇa na Bhagavad-gītā, “ahaṁ bīja-pradaḥ pitā – Eu Sou o pai que dá a semente”, ou seja, Sūrya representa a fonte da vida, a semente da existência. Dessa forma, Sūrya engloba significados básicos dos quais todas as demais coisas emergem.

terça-feira, 25 de julho de 2023

A razão de Sūrya (Sol) ser considerado um maléfico pelos indianos

No jyotiṣa é unânime a visão de que Sūrya (Sol) é um maléfico (krūra-graha). Todos os autores, de Varāhamihira (séc. VI) a Somayaji (séc. XVIII) concordam com isso. Outras vertentes astrológicas já consideram Sūrya uma fortuna/benéfico. Por exemplo, Abū Ma’shar, o grande astrólogo árabe, afirma (The great introduction, IV.6.28-29) que Sūrya é um benéfico por diferentes razões: devido a sua influência sobre as estações do ano – sem as quais não haveria equilíbrio na natureza -, a sua relação com o próprio princípio da vida etc. De fato, o que é citado por Abū Ma’shar é coerente. Inclusive, no jyotiṣa denominamos Sūrya como sarvātma, a alma de todas as coisas, pois ele é fonte de luz-consciência-vida, o que traz consigo uma conotação mais positiva. Ainda assim, consideramos Sūrya um maléfico pelo fato de sua ação ser áspera, assim como a dos demais maléficos. No entanto, há uma diferença significativa entre Sūrya e os demais krūra-grahas: ele não é pecaminoso (pāpī) como Maṅgala, Śani e os nodos, pois Sūrya não partilha da natureza tamasika (obscura) deles, visto ser um sattva graha (um graha afinado com o esclarecimento e a bondade). Sūrya é áspero devido ao seu comprometimento com a verdade, e sabemos bem que a verdade muitas vezes dói ou pode agir de forma ofuscante, assim como é quando nos expomos ao calor de Sūrya ou o olhamos diretamente.

Um rei/governante, por exemplo, para manter a ordem social, muitas vezes tem que usar de ações cruéis: prender, expor, punir, ou até mesmo mandar matar. Se refletirmos com cuidado, embora essas suas ações visem o bem, elas são desagradáveis e pesadas, e essas são qualidades próprias dos maléficos, ainda que tais ações não venham carregadas da crueldade gratuita ou meramente vingativa dos outros maléficos. Essa distinção se deve em partes ao fato do termo maléfico, na verdade, ser uma tradução simplista dessa categoria de grahas. A palavra originalmente utilizada para designar os maléficos é krūra, que pode significar cruel, mas também desagradável, duro, áspero, doloroso e até mesmo forte. Logo, o graha ser krūra não implica necessariamente em maldade/vilania, mas no mínimo em aspereza. Dessa forma, Sūrya é áspero, mas por natureza, ele não é injusto ou vil.