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terça-feira, 15 de outubro de 2024

Os professores dentre os grahas: Guru (Júpiter) e Śukra (Vênus)

Sendo hoje o Dia do Professor, me senti inspirado a escrever a respeito dos dois professores dentre os grahas: Bṛhaspati (Júpiter) e Śukra (Vênus). Nos textos clássicos de jyotiṣa esses dois grahas foram classificados como brāhmaṇas, sendo essa a classe dos intelectuais e sacerdotes. No entanto, uma diferenciação entre ambos é feita por Govinda Bhattattiri em sua Daśādhyayī (comentário aos dez primeiros capítulos do Bṛhat Jātaka de Varāhamihira). Govinda afirma que Bṛhaspati é um brāhmaṇa superior em qualificação quando comparado a Śukra. Ele designa Śukra como um “brāhmaṇa comum”, ao passo que Bṛhaspati ele define como “um brāhmaṇa de ordem superior”, pois Bṛhaspati é sattvika (puro e equilibrado), ao passo que Śukra é rajasika (apaixonado). E como bem sabemos, a paixão (rajas) macula o intelecto, nos levando a tomar decisões incorretas ou a perceber as coisas da forma equivocada. Sattva (o equilíbrio), por outro lado, ilumina a percepção e as decisões, nos protegendo dos equívocos e das distorções provenientes da interferência que a paixão pode ter sobre a nossa percepção da realidade.

Outra reflexão interessante a respeito de Bṛhaspati e Śukra envolve a relação da posição desses enquanto brāhmaṇas e suas constituições físicas. Bṛhaspati é definido como puramente kapha, ao passo que Śukra é descrito como kapha-vāta. Um dos atributos mais característicos de kapha é o seu peso (guru), ao passo que vāta já é relacionado ao atributo da leveza (laghu). Bṛhapasti, sendo puramente kapha, é o graha mais diretamente associado ao sobrepeso, mas esse peso também pode ser o peso da sabedoria e do conhecimento, não só o peso físico. Bṛhaspati é o mestre dentre os grahas, logo, ele é sólido/pesado em termos de conhecimento, daí de um de seus nomes ser Guru. Já Śukra, por oscilar entre kapha/vāta, tem um conhecimento oscilante, instável e mais sujeito a falhas do que o conhecimento que Bṛhaspati pode apresentar – o qual inclusive culmina em um conhecimento de natureza absoluta, o que os hindus chamam de tattva-jñāna, o conhecimento espiritual, o qual é imutável.

domingo, 13 de agosto de 2023

Dia dos pais, e uma reflexão sobre Sūrya (Sol)

Hoje é dia dos pais, logo, convém falar a respeito de Sūrya (Sol), o pitṛ-kāraka (significador do pai). Dentre os grahas, Sūrya é considerado o líder, afinal, o sistema é SOLAR e nenhum graha tem uma dimensão sequer próxima a dele. Todos os tratados clássicos de jyotiṣa, inclusive, são iniciados com um maṅgala-caraṇa (invocação auspiciosa) dedicado a Sūrya-deva. Dois bons exemplos são:

Sūrya, o criador, floresce supremo enquanto a fonte do universo e a natureza desse. Ele é o ornamento natural do firmamento, enfeitado com incontáveis raios semelhantes ao ouro derretido. – Bṛhat-saṁhitā

Glória a Sūrya-deva, cuja mera expiração cria este mundo; cuja ascensão desperta todos os seres vivos; cujo zênite acentua as atividades de todos, e cujo ocaso conduz os seres ao sono. A eficácia de Sūrya-deva se espalha por toda parte. – Sārāvalī

As dedicatórias a Sūrya constantes nos śāstras de jyotiṣa se devem ao fato dele ser a fonte desse conhecimento, afinal, dias e anos são calculados com base em Sūrya, e as posições de todos os grahas visíveis podem ser estudadas graças à luminosidade de Sūrya que eles refletem. Além disso, Sūrya é o significador da visão e da consciência, sem as quais não poderíamos enxergar nem ter percepção de nada. Logo, tudo o que há de mais fundamental para a nossa existência se relaciona simbolicamente a Sūrya. Por exemplo, a nível físico, ele representa asthi-dhātu, a ossatura, a unidade mais básica do corpo, onde todo o mais se apoia. Em uma sociedade, ele representa o governo/o rei. Na constituição pessoal, ele é o próprio ātman (alma), que vivifica o intelecto, a mente, o corpo e os sentidos. Na numerologia, ele é o número 1, e em uma família, ele é o pai, e como bem diz Śrī Kṛṣṇa na Bhagavad-gītā, “ahaṁ bīja-pradaḥ pitā – Eu Sou o pai que dá a semente”, ou seja, Sūrya representa a fonte da vida, a semente da existência. Dessa forma, Sūrya engloba significados básicos dos quais todas as demais coisas emergem.

terça-feira, 25 de julho de 2023

A razão de Sūrya (Sol) ser considerado um maléfico pelos indianos

No jyotiṣa é unânime a visão de que Sūrya (Sol) é um maléfico (krūra-graha). Todos os autores, de Varāhamihira (séc. VI) a Somayaji (séc. XVIII) concordam com isso. Outras vertentes astrológicas já consideram Sūrya uma fortuna/benéfico. Por exemplo, Abū Ma’shar, o grande astrólogo árabe, afirma (The great introduction, IV.6.28-29) que Sūrya é um benéfico por diferentes razões: devido a sua influência sobre as estações do ano – sem as quais não haveria equilíbrio na natureza -, a sua relação com o próprio princípio da vida etc. De fato, o que é citado por Abū Ma’shar é coerente. Inclusive, no jyotiṣa denominamos Sūrya como sarvātma, a alma de todas as coisas, pois ele é fonte de luz-consciência-vida, o que traz consigo uma conotação mais positiva. Ainda assim, consideramos Sūrya um maléfico pelo fato de sua ação ser áspera, assim como a dos demais maléficos. No entanto, há uma diferença significativa entre Sūrya e os demais krūra-grahas: ele não é pecaminoso (pāpī) como Maṅgala, Śani e os nodos, pois Sūrya não partilha da natureza tamasika (obscura) deles, visto ser um sattva graha (um graha afinado com o esclarecimento e a bondade). Sūrya é áspero devido ao seu comprometimento com a verdade, e sabemos bem que a verdade muitas vezes dói ou pode agir de forma ofuscante, assim como é quando nos expomos ao calor de Sūrya ou o olhamos diretamente.

Um rei/governante, por exemplo, para manter a ordem social, muitas vezes tem que usar de ações cruéis: prender, expor, punir, ou até mesmo mandar matar. Se refletirmos com cuidado, embora essas suas ações visem o bem, elas são desagradáveis e pesadas, e essas são qualidades próprias dos maléficos, ainda que tais ações não venham carregadas da crueldade gratuita ou meramente vingativa dos outros maléficos. Essa distinção se deve em partes ao fato do termo maléfico, na verdade, ser uma tradução simplista dessa categoria de grahas. A palavra originalmente utilizada para designar os maléficos é krūra, que pode significar cruel, mas também desagradável, duro, áspero, doloroso e até mesmo forte. Logo, o graha ser krūra não implica necessariamente em maldade/vilania, mas no mínimo em aspereza. Dessa forma, Sūrya é áspero, mas por natureza, ele não é injusto ou vil.  

domingo, 23 de julho de 2023

Sim, Śani (Saturno) é mais maléfico do que Maṅgala (Marte)

Śani (Saturno) governa vāta, o doṣa (uma função fisiológica) de onde emerge o maior número de doenças, pois vāta tem qualidades como frieza (śīta), secura (rūkṣa) e aspereza (khara), as quais se mostram presentes em Śani e se afinam mais com o desgaste da vida do que com a sua manutenção – ainda que haja uma função sadia também em vāta, e que se expressa melhor em Budha do que em Śani.

Vāta governa a terceira e última fase da vida, assim como o fim de todos os processos: o fim do dia e da noite, o processo final da digestão (que ocorre no intestino grosso) etc. Com Śani não é diferente, pois ele governa a terceira idade, a morte, o intestino grosso e todo o mais conectado aos fins. Logo, é apropriado considerar Śani maléfico e, mais do que isso, ele é o principal maléfico, pois as suas qualidades se afinam mais com a morte e com a decadência do que as de Maṅgala (Marte), por exemplo, que por governar pitta, ainda tem uma certa relação com a vida, pois pitta é quente, e a vida é justamente sobre isso: calor. Maṅgala é maléfico porque peca pelo seu excesso, assim como um jovem que, devido a sua confiança cega em sua própria força física e habilidade acaba acidentado ou mesmo morto em uma briga. Por sinal, indivíduos com uma constituição pitta por vezes acabam morrendo por conta de sua imprudência e por seus excessos (como no caso de uma overdose), não exatamente por conta de doenças, visto que possuem um metabolismo forte – daí também de Maṅgala ser o kāraka (significador) da seis (parte digestiva).

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Como eu devo analisar os trânsitos dos grahas?

Trânsitos são um grande interesse do público geral, mas há uma série de coisas que alguns não sabem o quão importantes são para que um trânsito seja realmente relevante. Afinal, todos os trânsitos tem impacto – algo que alguns, mais radicais, também não aceitam, embora seja um fato –, mas nem todos são tão relevantes.

Quando o astrólogo analisa um mapa, nele ele vê múltiplas promessas, mas dentro de um formato atemporal, ou seja, você sabe que a pessoa vai se casar, divorciar e casar de novo, mas essas coisas não vão acontecer ao mesmo tempo, afinal, isso nem sentido faz. Aí é que entram as técnicas de tempo simbólico, que no jyotiṣa nós chamamos de daśās. As daśās funcionam como gatilhos que ativam eventos dentro de uma faixa X de tempo. Logo, há daśās que favorecem casamentos, outras que favorecem divórcios, e o astrólogo deve ser capaz de diferenciar uma coisa da outra para poder prever eventos distintos, mas prometidos no mapa.

Uma vez que o astrólogo sabe usar das daśās para prever eventos, ele deve confirmar esses eventos por meio dos trânsitos. Tanto as daśās quanto os trânsitos são técnicas de predição, mas de naturezas distintas, pois a daśā lida com um tempo simbólico – p. ex.: “fulano vive a daśā de Júpiter, que dura 16 anos, depois entra na daśā de Saturno, que dura 19 anos” –, ao passo que o trânsito lida com um tempo real – p. ex.: “Saturno vai estar passando por aquário até 2025, logo, ele vai afetar X casa do seu mapa até lá”. Essas duas técnicas de predição são interdependentes, pois se ignoramos uma delas, automaticamente diminuímos muito a nossa precisão preditiva.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

A vida espiritual existe à parte do mapa astrológico?

Um tema que gera muitas dúvidas é este: a vida espiritual existe à parte do mapa, ou é algo que também estudamos por meio do mapa? Bem, a resposta para isso, na minha humilde opinião, pode ser encontrada se seguimos três passos: (1) uma investigação filosófica sobre tattvas (verdades) fundamentais, tomando por referência os śrutis e smṛtis (os textos védicos); (2) a busca por referências sobre vida espiritual nos textos clássicos de jyotiṣa; (3) a observação direta dos mapas de sādhakas (praticantes espirituais) e siddhas (santos, as almas autorrealizadas).

Em relação ao primeiro passo da nossa investigação, é notável que o kāla/daiva (tempo/destino) é referido no Bhagavata-purāṇa[1], o comentário natural ao Vedānta-sūtra, como imutável. Isso é consubstanciado por várias passagens do Rāmāyaṇa, Mahābhārata, Bhagavad-gītā e das Upaniṣads. Na Gītā, por exemplo, os versos 5.8-9, 5.14, 13.20, 13.30, 13.32 etc., são alguns exemplos onde se esclarece que todas as ações realizadas dentro da realidade material são produto de prakṛti/traiguṇya (a natureza fenomênica/os três guṇas), e não do ser vivo (jīva). Há também versos como 2.14 que esclarecem como a experiência da dualidade dentro dessa realidade é inevitável e deve ser tolerada, ou seja, não há como controlarmos o destino ao nosso bel-prazer. Ao invés de estimular o controle sobre a natureza, o vedānta nos ensina a importância de se cultivar o desprendimento e a equanimidade (frutos naturais do sacrifício espiritual) como um meio de não se deixar afetar pelas dualidades (alegrias e tristezas, honra e desonra etc.) do mundo, visto que essas não têm relação alguma com a alma nem a afetam. Ou seja, a mensagem do vedānta é sobre curvar-se perante a realidade, ao invés de chocar-se com ela. Dada a natureza transcendental da alma, não há porque se deixar abalar pelas experiências transitórias e naturais deste mundo.

Em vista dessas afirmações todas dos śāstras, fica evidente que qualquer movimento realizado dentro do mundo material é oriundo da ação dos guṇas, logo, ele precisa se expressar dentro de suas leis. 
Por exemplo, se eu me dedico a realizar uma peregrinação, um ato espiritual, para isso eu preciso usar o meu corpo, a minha mente etc., logo, essas ações todas também precisam estar representadas nos símbolos astrológicos, os quais abordam justamente os guṇas/prakṛti que envolvem tanto os aspectos materiais densos (o corpo) quanto sutis (a mente, o intelecto e o falso-ego/ahaṅkāra). Essa mesma lógica se aplica a qualquer outro tipo de ação voltada para o âmbito espiritual.