quinta-feira, 23 de abril de 2015

Prevendo através dos trânsitos

Anticítera, instrumento utilizado no passado
para cálculos astronômicos.
          Para determinar quando um evento vai se dar, nos valemos dos daśās no jyotiṣa, que são os sistemas de predição baseados em divisões do tempo governados por cada um dos planetas. Porém, além dos daśās, os trânsitos, denominados goccharas, também são fundamentais, pois sem os trânsitos fica muito difícil precisar quando um evento irá se dar.

            Dentre as várias técnicas de análise de trânsitos, como as propostas em clássicos como Phaladīpikā, ou nos Nāḍi Granthas, há uma em especial que é muito eficiente, mencionada por K.N. Rao em seus livros. Essa regra diz que para que algo se manifeste o consentimento de Júpiter e Saturno se faz necessário, ou seja, ambos precisam influenciar por aspecto, ou conjunção, durante os seus trânsitos, as casas, ou os senhores das casas que governam um determinado assunto para que o evento se manifeste. Para exemplificar como isso funciona, um exemplo é dado logo abaixo.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Compreendendo Saturno

          Quando se fala de Saturno, aqueles que compreendem um pouco que seja da astrologia logo pensam na palavra karma. Alguns até dizem que Saturno é quem indica o nosso karma, num sentido pejorativo, o que não é muito apropriado de se dizer, pois o mapa todo compõe o nosso karma. Além do que, karma não é algo necessariamente ruim, pois trata-se de uma lei neutra que pode gerar tanto bons quanto maus frutos. Karma se traduz como atividade e não como fardo, embora seja natural que venha a se tornar um fardo pelo fato de que todos acabam se tornando cativos de seu próprio ciclo de atividades fruitivas, seja um milionário, um miserável, ou o que quer que seja. Portanto, para esclarecer o papel de Saturno e sua relação com o karma, estou escrevendo esse artigo. E para começar, considero que uma das melhores formas de entender Saturno é analisar as casas as quais ele é kāraka (significador), a 8 e a 12, pois isso nos ajudará a ir fundo em seu papel em uma carta natal.

As casas 8 e 12 tratam respectivamente da morte e das perdas, sendo definidas como dusthānas – locais de sofrimento, mas sofrimento com um propósito! Se analisarmos detidamente veremos que as casas 8 e 12 são parte do chamado mokṣa-trikoṇa, casas que, somadas a 4 compõem o triângulo de mokṣa, ou seja, que tratam da libertação do ciclo de nascimentos e mortes. No caso da 8, é a casa do conhecimento esotérico que é a raiz da libertação, e no caso da 12, a casa de śaraṇāgati, rendição, sacrifício completo que frutifica na libertação do saṃsāra. Portanto, isso qualifica essas casas como casas tanto de sofrimento, quanto de libertação, e Saturno é muito importante nesse processo todo.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sūrya yogas: que impacto você tem sobre o mundo?

De acordo com os textos clássicos há três tipos de Sūrya yogas, ou seja, yogas solares: veśi, vośi e ubhayachara yoga. Esses yogas são muito importantes e a prova disso é de que no BPHS eles são um dos primeiros yogas a serem tratados nos capítulos que se destinam a isso. Os Sūrya yogas ajudam a definir a extensão de suporte que uma pessoa receberá do mundo, assim como o impacto que ela terá sobre o mesmo. Por conta disso, esses yogas são muito importantes para determinar status, sucesso, e também o caráter do indivíduo. 

A formação desses três yogas é muito simples, ela se dá da seguinte forma:

   (1)  Veśi yoga: se um planeta ocupa a dois do Sol, veśi yoga se forma.

   (2)  Vośi yoga: se um planeta ocupa a doze do Sol, vośi yoga se forma.

(3)  Ubhayachara yoga: se a dois e doze do Sol estão ocupadas por planetas, ubhayachara yoga se forma.

O significado desses yogas, de acordo com o clássico Sārāvalī, do rei Kalyana, são:

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os conhecimentos através das casas dois e cinco

        Para definir os conhecimentos de uma pessoa duas casas são muito importantes: a dois e a cinco, pois embora possamos expandir essa questão para muito além dessas duas casas, vamos deter nosso estudo a elas apenas, pois elas provam-se centrais em diversos textos. Phaladīpikā, Jātaka Pārijāta e Sarvārtha Cintāmani determinam os conhecimentos que o indivíduo possui com base na dois, enquanto que a cinco é utilizada para determinar a inteligência, discernimento e memória, ou seja a qualidade do intelecto. Porém, Jaiminī indica a quinta casa como uma casa muito importante também para a determinação de habilidades, pois essa é a casa das paixões, daquilo a que nos devotamos de coração. Na prática podemos comprovar a eficácia de tal princípio exposto por Jaimi. Por exemplo, Herman Hesse possuía Mercúrio e Sol na quinta em gêmeos recebendo o olhar de Júpiter, e o mesmo tinha paixão pela escrita e a filosofia. Outro exemplo é Amedeo Modigliani que possuía Vênus, Mercúrio e Sol na onze em gêmeos a lançarem seus olhares a quinta, o que tornou o mesmo um apaixonado pintor. Portanto, com base nas influências que a quinta casa recebe, podemos determinar quais são as paixões do indivíduo, o que lhe interessa intelectualmente, representando-lhe uma fonte de expressão pessoal e criativa.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Kendrādhipatya doṣa

              Encontramos no Bṛhat Parāśara Horā Śāstra um śloka a respeito de natureza funcional que diz:

Benéficos, regendo kendras, não conferirão efeitos benéficos, enquanto maléficos, regendo kendras, não permanecerão inauspiciosos. – 2.34

            Tal śloka tem criado muita confusão entre alguns praticantes e estudantes. Esse conceito tem sido nomeado como kendr
ādhipatya doṣa. A lógica por detrás de tal princípio não é de que um benéfico regendo kendra se torna inauspicioso e um maléfico se torna auspicioso, como muitos interpretam, pois Parāśara nem sequer diz isso. Ele apenas diz “... não conferirá efeitos benéficos” e “...não permanecerão inauspiciosos”, o que nos remete a certa neutralidade. Um pouco mais adiante, no mesmo capítulo temos o seguinte śloka:

Em causarem malefícios, devido a regência dos kendras, Lua, Mercúrio, Júpiter e Vênus são significantes em ordem ascendente. – 10.34

            Nesse śloka a menção de “malefícios” é significativa, e nos faz pensar que de fato um benéfico regendo kendra se torna inauspicioso, porém na prática não é isso o que vemos de fato, portanto isso tem de ser analisado cuidadosamente. Por exemplo, para o lagna sagitário ou peixes, Júpiter rege dois kendras, incluindo o lagna, e Parāśara o define como neutro devido a isso. Porém, para o lagna virgem, Parāśara diz que Júpiter é maléfico funcional, e nesse caso o temos como regente de quatro e sete. A regência da casa sete aqui é significativa e indica que Júpiter se torna maléfico não por ser um benéfico a reger kendras, mas sim por reger um māraka, o que nesse caso interfere em sua neutralidade como regente de kendra, inclinando-o ao malefício.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Como determinar o guṇa predominante em uma natividade

          Os três guṇas da natureza material são rajas (paixão), sattva (bondade) e tamas (ignorância). Esses guṇas estão presentes em toda a manifestação cósmica, e em tudo que a habita, incluindo nós, seres humanos. Os guṇas são responsáveis por toda a trama dentro da natureza material, visto que toda ação advém deles e não do espírito encarnado, o ātman. No seguinte verso da gītā isso fica bastante claro:

O espírito encarnado, senhor da cidade de seu corpo, não cria atividades, nem induz as pessoas a agirem, e nem cria os frutos da ação. Tudo isto é designado pelos modos da natureza material. – 14.5 Bhagavad-gītā

Portanto, os guṇas são os verdadeiros atores dentro da natureza material, e o astrólogo pode identificar em um mapa qual guṇa predomina sobre um nativo. Para isso deve-se considerar o seguinte:

(1)  Sol, Lua e Júpiter são sattva guṇa.
(2)  Vênus e Mercúrio são rajas guṇa.
(3)  Marte, Saturno, Rāhu e Ketu são tamas guna.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Kartari yoga e a sua importância na predição

           No Jyotiṣa existe o conceito de kartari, onde kartari significa tesoura e é um yoga que ocorre quando uma casa ou planeta é cercado por outros planetas, ou seja eles devem ocupar as casas dois e doze a partir do ponto em questão.

Há dois tipos de kartaris:

     (1)  Śubha, que se dá quando formado por benéficos.

     (2)  Pāpa, que se dá quando formado por maléficos.

            Śubha kartari yoga traz prosperidade para o ponto em questão, e pāpa kartari yoga traz prejuízos. Para exemplificar como esse conceito é importante e decisivo em uma interpretação, vou dar o exemplo aqui do mapa de um rapaz que recentemente me perguntou se iria conseguir fixar-se em seu trabalho quando acabasse o período de teste pelo qual estava passando na empresa. Ele teria sua resposta após o dia 30 de novembro e me indagou por volta do meio de novembro. No caso, ele estava temeroso de que fosse perder o emprego, visto que alguns superiores estavam insatisfeitos com ele.