quarta-feira, 24 de abril de 2019

Sobre como determinar a longevidade a partir do mapa

Dos temas que podem ser estudados em um horóscopo, nenhum é tão difícil de precisar quanto o tema longevidade. Mesmo os melhores astrólogos podem falhar ou se mostrar apreensivos em relação ao estudo dessa área da vida. No entanto, os astrólogos do passado deixaram bastante claro que antes de analisar qualquer coisa em um mapa, o astrólogo deve determinar a longevidade do indivíduo, pois afinal, de que adiantam rāja yogas para alguém que está destinado a morrer antes de desfrutar dos resultados desses?

Para resolver esse problema, os astrólogos do passado desenvolveram dezenas de métodos visando determinar a longevidade de um indivíduo. No caso, a esses métodos é dado o nome de nitya āyurdāya quando envolvem cálculos matemáticos - como é o caso do piṇḍa, aṁśa e nisarga āyurdāya - ou anitya ayurdāya, quando envolvem a observação de três pares de fatores - como é o caso do método de Jaimini e o de Mantreśvara. Nenhum desses sistemas é 100% funcional, pois inclusive alguns deles possuem inúmeras variações possíveis em seus cálculos, fruto tanto de discordância quanto também de dúvida entre os astrólogos clássicos e contemporâneos.

Em vista disso, muitos se sentem desencorajados a tentar determinar a longevidade. Porém, há um terceiro método de avaliar a longevidade: yogaja, o qual é muito mais flexível e, por sinal, pode-se dizer que é 100% preciso se utilizado da maneira correta. Nesse método, o que importa é observar a distribuição dos grahas no mapa, suas forças, os yogas que formam e consequentemente, a maneira como afetam a longevidade.

Um indivíduo que nasce com Chandra na oito, minguante, conjunto a Rāhu e sob olhar de Śani, sem qualquer intervenção de um saumya graha (benéfico), por exemplo, é um caso de alpayu, vida curta, senão de balāriṣṭa, morte infantil. Já alguém que nasce com Śani exaltado na onze e o regente da oito digno na cinco, enquanto o senhor do lagna ocupa um kendra sob olhar de Guru, é um caso de pūrṇāyu (vida longa).

Praticamente todos os textos clássicos de jyotiṣa contém pelo menos um capítulo inteiro dedicado ao tema longevidade e, quando não, possuem pelo menos alguns versos dedicados ao assunto, incluindo sempre versos que se referem a yogaja. Inclusive, em seu “How to judge a horoscope”, B. V. Raman chegou a listar uma série de yogas para vida curta, média e longa, extraídos de versos clássicos. Dessa forma, é possível sim prever a longevidade de um indivíduo, especialmente por meio de yogaja, porém, isso não necessariamente é algo fácil de se fazer, pois como disse mais acima, nada é mais difícil no jyotiṣa do que determinar a longevidade de um indivíduo.

Mas então podemos nos perguntar: "Só observar yogaja é suficiente para determinar a longevidade?", a resposta é: "Sim e não", pois yogaja já nos dá a longevidade do indivíduo, mas para que haja uma confirmação segura, é importante conjugar a análise de yogaja com a observação das daśās, pois afinal, para um indivíduo encerrar sua vida ele precisa passar pela daśā de um māraka[1]. Claro que também podemos incluir o uso de nitya e anitya āyurdāya em nossas análises, mas apenas como uma referência secundária, uma vez que yogaja e daśā são muito mais importantes e precisos. 

Outra coisa que ajuda imensamente na determinação da longevidade é cruzar os dados do indivíduo com os de pessoas próximas a ele. Por exemplo, podemos inferir a longevidade de alguém com mais segurança se observamos o mapa de seus filhos, esposa, esposo, pai, mãe, etc., afinal, os mapas desses também irão refletir o evento de sua morte, por meio das daśāsInclusive, com as daśās conjugadas em um ou mais mapas podemos tanto inferir um período mais estreito quanto também mais amplo em que a vida do indivíduo se encerraria, o que pode ser determinado de acordo com a preferência do mesmo ou a capacidade do astrólogo em si. Por exemplo, pode-se dizer: “você provavelmente viverá algo entre 60-77 anos de idade, pois esse período corresponde a mahādaśā de Budha, um māraka em potencial no seu mapa” ou “provavelmente, a sua vida se encerrará entre 71-80 anos de idade, período que corresponde a sua sthira daśā de áries, um māraka rāśi em potencial”, etc. Isso já dá uma boa noção do quanto o indivíduo viverá ou do quanto ele no mínimo viverá, além de dar uma sensação maior de liberdade, afinal, não se trata do ano exato da morte, mas de anos prováveis. 

Devo mencionar também que um astrólogo só pode revelar a longevidade de uma pessoa que deseje saber sobre o assunto, do contrário, mencionar a longevidade sem que haja por parte do indivíduo o desejo de saber a respeito disso passa a ser um ato de violência. Não só, ninguém deve jamais se aventurar a tentar determinar a longevidade de alguém sem antes ter estudado a fundo o tema e desenvolvido alguma experiência astrológica substancial. Ainda mais porque muitos casos levarão mesmo um astrólogo experiente a ter dúvidas sobre a capacidade de uma daśā de encerrar a vida, o que dizer então de um leigo ou um estudante inexperiente e cujo conhecimento é limitado? Em situações como essa, onde mesmo um astrólogo experiente não tem certeza quanto a capacidade de uma daśā de pôr fim a vida, o mais prudente é sempre recomendar que o indivíduo cuide de sua saúde, reveja seus hábitos se necessário e que intensifique ou comece uma prática espiritual. Por sinal, o upāya que Parāśara geralmente recomenda, no caso das māraka daśās, é a recitação regular do mahāmṛtyunjāya mantra, o que pode tanto ajudar o indivíduo a superar os riscos que vier a encontrar quanto também o preparar para a sua derradeira passagem, afinal, não é novidade que nada perdura neste efêmero mundo material.

oṁ tat sat



[1] Por māraka não me refiro apenas aos ocupantes ou senhores de dois e sete, uma vez que māraka nesse caso se refere a grahas que podem tirar a vida, mas que não necessariamente são regentes ou ocupantes de dois e sete.

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