domingo, 11 de junho de 2017

Os bhāva yogas de Mantreśvara

Quando uma casa conta com a influência de um benéfico e o seu senhor ocupa uma boa casa em seu domicílio, mūlatrikoṇa ou exaltação, estando livre de combustão, os seguintes yogas se formam, partindo do lagna até a décima segunda casa: (1) chāmara yoga, (2) dhenu yoga, (3) śaurya yoga, (4) jaladhi yoga, (5) chāttra yoga, (6) astra yoga, (7) kāma yoga, (8) astra yoga, (9) bhāgya yoga, (10) khyāti yoga, (11) pārijāta yoga e (12) musala yoga. Em outras palavras, tais yogas implicam na plenitude dos resultados de uma determinada casa. 

O contrário, isso é, a aflição de uma casa por um maléfico, enquanto o seu senhor, enfraquecido, ocupa um dusthāna (6, 8 ou 12) indicará os seguintes yogas, do lagna à doze: (1) ava yoga, (2) nisḥva yoga, (3) mṛti yoga, (4) kuhū yoga, (5) pāmara yoga, (6) harṣa yoga, (7) duṣkṛti yoga, (8) sarala yoga, (9) nirbhāgya yoga, (10) duryoga, (11) daridra yoga e (12) vimala yoga.

A compreensão dos resultados de cada um desses yogas depende do conhecimento de seus termos e também do que é dito por Mantreśvara nos versos 44-69 do sexto capítulo da Phaladīpikā.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Grandes personalidades e os mahāpuruṣa yogas

Dentre os vários yogas descritos nos textos de jyotiṣa, há um grupo que ganhou grande importância: o dos mahāpuruṣa yogas. A palavra por si só já é bastante significativa, pois se refere a uma grande (mahā) personalidade (purūṣa), alguém cujo destino é singular e que possui no corpo certas marcas (lakṣanas) que a distinguem dos demais.

Em seu Bṛhat Parāśara horā śāstra, o sábio Parāśara define os mahāpuruṣa yogas da seguinte forma (75.1-2):

"...quando Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, ocupando seu domicílio (svakṣetra), mūlatrikoṇa ou signo de exaltação (uccha), estiverem simultaneamente em uma casa angular (kendra; 1-4-7-10) a partir do ascendente (ou da Lua), isso dará origem a ruchaka, bhadra, haṁsa, malavya e ṣaṣa yoga, respectivamente. Esses yogas são chamados de pancha mahāpuruṣa yogas e as pessoas que nascem sob tais yogas tornam-se grandes personalidades".

Mantreśvara, Kalyāna, Vaidyanātha e tantos outros autores importantes também incluíram os pancha mahāpuruṣa yogas em seus textos. Mantreśvara, na Phaladīpikā, abre o capítulo de yogas justamente com os pancha mahāpuruṣa yogas, enquanto Kalyāna dedicou um capítulo inteiro a discutir a força dos elementos, guṇas e dos mahāpuruṣa yogas. Isso nos dá uma idéia da importância desses yogas na tradição do jyotiṣa.

Se analisamos com mais cuidado a formação desses yogas, não é a toa que foram tão enfatizados. Em primeiro lugar, envolvem cada um dos pancha tāra grahas[1] (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno) detendo força e em segundo lugar, eles devem estar dispostos nos kendras, as casas angulares (a partir do ascendente ou da Lua natal), definidas por Parāśara como as mais fortes dentre todas as casas do mapa. Isso por si só já faz de tais posicionamentos louváveis.

Quando um graha se situa em um kendra ele obtém o chamado kendrādi bala, um tipo específico de força que destaca os seus efeitos quando comparado com os efeitos de um graha em casa sucedente (2-5-8-11) ou cadente (3-6-9-12). Há várias evidências de como um graha em casa angular possui uma força destacada e capaz de predominar sobre os outros aspectos do mapa. Por exemplo, quando há certos yogas de morte precoce presentes no mapa, um graha benéfico em kendra detendo força é suficiente para mitigar os males de tais yogas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

I. Como interpretar os nodos: Rāhu

Além dos sete grahas visíveis, Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, o jyotiṣa também leva em conta nas análises os nodos lunares, Rāhu e Ketu. Nesse artigo vou explicar como interpretar Rāhu, especificamente:

(1) Parāśara diz que a aparência de Rāhu é enfumaçada, horripilante e sua compleição é azulada, o que nos remete a um ser espectral e fantasmagórico. Essas características contribuem com a inconsistência dos resultados de Rāhu, o qual cria expectativas que se desvanecem no ar, trazendo desilusões, experiências amargas e choques onde está situado e em relação aos grahas que afeta no mapa. Nota-se distorção, irregularidade e até mesmo perversão naquilo que ele influencia. No entanto, superficialmente, Rāhu pode aparentar uma pura e nobre intenção, assim como vemos entre homens que se dizem santos, mas na sua intimidade agem de forma completamente contrária a isso.

(2) O ahaṃkāra, isso é, a noção errônea sobre quem sou, está relacionado a Rāhu, o qual eclipsa a percepção do verdadeiro eu (Sol). A orientação de Rāhu é suspeita, pois sempre busca atalhos para conseguir o que quer, além de enxergar as coisas sobre um prisma competitivo e egoísta. Onde está posicionado no mapa, é onde estamos mais sujeitos as armadilhas do egoísmo, a sede por prestígio e por privilégios mais amplos do que realmente merecemos. Rāhu é faminto, insatisfeito, inconseqüente e capaz de distorcer as coisas simplesmente para alimentar as suas próprias ilusões sobre como as coisas devem ser. Definitivamente, Rāhu não se interessa pela realidade, pois ela implica em sacrifícios os quais ele não está disposto a realizar, tal como é representado em seu mito. Isso faz com que as conquistas de Rāhu sejam súbitas, aceleradas, mas também efêmeras e com grande tendência ao desastre, ao menos na maior parte das vezes. Devido a isso, é dito que durante a sua mahādaśā (período maior), todos os bons efeitos conquistados tendem a se esvair na última parte do seu período.

domingo, 20 de novembro de 2016

Ego e falso ego, a diferença entre ambos e onde estão no mapa

Muitas pessoas tem dificuldade de determinar ao certo o que seria o ego. Em geral, é predominante uma concepção negativa do mesmo, no entanto, o ego em si não é um problema, pois o verdadeiro ego é a ātmā (a alma), o princípio consciente e eterno, sem o qual a existência seria impossível. Uma pessoa que se identifica com a ātmā é uma pessoa liberada/auto-realizada (mukta-puruṣa), ou seja, que conhece verdadeiramente a si mesma.

Portanto, o verdadeiro problema não é o ego, mas sim o falso-ego, chamado dentro da filosofia védica de ahaṃkāra, cujo significado é 'eu faço/ajo'. O ahaṃkāra é a idéia equivocada de que eu sou este corpo e tudo o que ele compreende, como os sentidos, a mente e o intelecto. Quem se absorve no ahaṃkāra é a baddha-jīva (a alma condicionada), a qual desenvolve sintomas de apego corpóreo, ignorância, egoísmo e um caráter explorador. 

O ahaṃkāra eclipsa a nossa percepção da ātmā através da ideia de que eu sou o ator e o controlador da vida que experimento. Trata-se de um estado confuso e torpe de consciência. Ou seja, invés do indivíduo se identificar com a consciência impassível, eterna e bem-aventurada proveniente da ātmā, ele se absorve na finita trama corpórea com todas as transformações que essa compreende e que lhe causam diferentes tipos de apreensão.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Horários incertos e o kārakāṁśa

Quando sabemos o dia em que uma pessoa nasceu, por exemplo, uma pessoa famosa, mas não temos o horário do nascimento, podemos recorrer a uma técnica muito difundida por Jaimini para analisar tal mapa: o kārakāṁśa.

O kārakāṁśa é o signo ocupado pelo ātmakāraka no navāṁśa, o qual é marcado no rāśi/mapa natal (D1) como um lagna (ascendente). Em geral, o ātmakāraka permanece sendo um mesmo graha ao longo de todo o dia, mas pode ocorrer de termos dois ou mais ātmakārakas possíveis no decorrer de um dia, conforme o movimento dos grahas, o que implica em dois ou mais kārakāṁśas/svāṁśas possíveis. No entanto, o kārakāṁśa correto pode ser decidido por uma análise cuidadosa e utilizado, inclusive como uma referência de retificação do horário de nascimento.

Para exemplificar isso, segue abaixo um exemplo, o mapa de Śrīla Bhaktivinoda Ṭhākura, cujo o horário de nascimento é desconhecido:


No dia do seu nascimento, 1 de setembro de 1838, considerando todas as 24hrs do dia, temos a possibilidade de dois ātmakārakas: Lua e Vênus, pois, embora Vênus seja o graha com maior longitude no mapa (19º ou 20º a depender do horário utilizado), quando consideramos o nascimento nas primeiras horas da madrugada, a Lua ocupa os graus finais do signo de sagitário, o que a colocaria como ātmakāraka.

domingo, 13 de novembro de 2016

Prāṇapada lagna e a retificação do horário de nascimento

Uma das melhores formas de retificar o horário de nascimento é através do prāṇapada, um dos lagnas especiais (viśeṣa lagna) que Parāśara ensina a respeito no viśeṣa-lagna-adhyāya do seu horā śāstra.

O prāṇapada é um lagna muito sensível ao horário de nascimento, pois ele muda de signo a cada seis minutos, ou seja, em uma hora e doze minutos ele percorre todo o zodíaco, sendo que ao longo de um dia ele realiza vinte desses ciclos. Devido a isso, esse é o lagna mais sensível dentre os que foram ensinados por Parāśara.

Para entendermos melhor o prāṇapada, é importante compreendermos o que significa prāṇa. Prāṇa é o ar vital, o qual absorvemos por meio da respiração e que é distribuído pelo corpo por meio dos batimentos cardíacos. Ele também pode ser considerado como sendo a força que move todos os nossos pensamentos.

O prāṇapada, portanto, é um lagna que revela onde o indivíduo está focando o seu prāṇa. Parāśara descreve os resultados do prāṇapada em cada uma das doze casas da seguinte forma:

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sobre o ouvir e o falar

As capacidades de ouvir e de transmitir o conhecimento são essenciais em todo aprendizado. Foi devido a isso, provavelmente, que Jaimini mencionou em seu Upadeṣa sūtra não só a casa cinco, mas também as casas dois e três como importantes para a definição de talentos e aprendizado (1.2.116-117).

A dois trata do aparelho vocal e, conseqüentemente, do discurso do indivíduo, o que também pode ser analisado a partir de Mercúrio. Já a casa três, representa os ouvidos e, portanto, vai indicar aquilo que o indivíduo ouve e a qualidade de sua audição, sendo que através de Júpiter também vemos essas mesmas questões.

É interessante notarmos que a três é a dois da dois, ou seja, o ato de ouvir/ler sustenta o discurso, ao passo que a dois é a doze da três, indicando que quando falamos estamos usando aquilo que ouvimos/lemos, afinal, o ouvir/ler precede o falar. Quando os regentes de dois e três ou mesmo quando Júpiter e Mercúrio travam algum contato, isso indica que o indivíduo vai expressar bem aquilo que ele ouviu/leu, a menos que hajam aflições envolvidas. Esse yoga também é um possível indicativo de envolvimento com uma tradição oral, além de ser um yoga de inteligência que pode ser especialmente reforçado pela relação do regente de cinco com esses yogas.