segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Guru (Júpiter)

Na Índia, Júpiter é chamado de Guru, que superficialmente significa "professor". O seu significado mais profundo, no entanto, é expresso na Advayatārakopaniṣad, que diz:

गुरुभक्तिसमायुक्तः पुरुष्ज्ञो विशेषतः।
gurubhaktisamāyuktaḥ puruṣjño viśeṣataḥ |

एवं लक्षणसंपन्नो गुरुरित्यभिधीयते॥ १५॥
evaṁ lakṣaṇasaṁpanno gururityabhidhīyate || 15||

A sílaba "gu" significa escuridão e "ru", aquele que dispersa. Portanto, quem tem tal poder de dispersar a escuridão da ignorância é um guru.

Logo, alguém capaz de guiar um indivíduo da treva de tamas (inércia, escuridão, ignorância) a luminosidade de sattva (bondade, equilíbrio, conhecimento) pode ser chamado de guru. No entanto, guru também pode se referir a alguém que remove nossas dúvidas quanto a um determinado ramo de conhecimento, não necessariamente espiritual.

Outra tradução da palavra guru é "pesado", referindo-se ao fato de um guru deter vasto conhecimento e estar firmemente alicerçado na verdade absoluta, ou seja, ele é um tattva-darśī (um vidente da verdade). De um ponto de vista mundano, qualquer pessoa que tenha vasta experiência e conhecimento em um determinado tema também pode ser considerado um guru, ou seja, um mestre.

Astrologicamente, Júpiter é quem personifica todas essas características. Inclusive, ele é o único graha exclusivamente kapha, ou seja, que partilha das características desse doṣa como ser pesado, macio, untuoso, doce e estático, o que favorece a sua natureza benevolente, tolerante e pacífica, uma vez que kapha é um doṣa mais associado as características femininas, pois combina dois elementos femininos em si: a água e a terra.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Māhamṛtyunjāya mantra

No seu horā śāstra, Parāśara diz que quando o indivíduo vive a daśā de um graha que ocupa ou rege a dois ou a sete, ou mesmo se relaciona com os regentes dessas duas casas, o indivíduo correrá riscos de vida ou experimentará sofrimentos e agonias semelhantes aos da morte. Isso se deve ao fato das casas dois e sete serem a doze da três e da oito, respectivamente, casas que falam sobre āyur, a longevidade. Portanto, dois e sete tratam da perda da longevidade e são denominadas mārakas (assassinas) nos textos clássicos.

Na minha prática atestei que, de fato, um indivíduo morrerá ou passará por dificuldades de saúde e temores durante as daśās acima mencionadas. Aqueles que tem indicações de vida curta (alpāyu) costumam abandonar o corpo na terceira daśā (vipat-tāra), os que tem vida média (madhyāyu), na quinta daśā (pratyak-tāra) e os de vida longa (pūrṇāyu) na oitava daśā (naidhana-tāra). Isso, obviamente, quando tais daśās estão de acordo com os princípios acima mencionados e há também uma confluência de fatores negativos, como trânsitos e indicações por parte de outras daśās tais como a śūla daśā.

No entanto, tendo em vista que determinar a extensão da longevidade (āyu-kandha) não é uma tarefa fácil, é recomendável que o indivíduo sempre tome um cuidado especial com a sua saúde na daśā de grahas que adquirem o potencial de mārakeśas (assassinos). Parāśara recomenda, inclusive, que certas práticas sejam realizadas durante tais períodos. Dentre elas, destaca-se a prática do māhamṛtyunjāya mantra, o grande mantra que venceu a morte e que é dedicado a Tryambakaṃ, aquele que possui três olhos: Śiva.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Curso sobre ārūḍhas no mês de agosto de 2017

Em agosto darei início a um curso breve, de dois dias, sobre os ārūḍhas/padas, conforme o que foi exposto sobre a técnica em textos como Upadeśa sūtra, Bṛhat Parāśara horā śāstra, Uttara kalāmṛta, Deva keralam e Jyotiṣa phala ratna mala. 

Para quem não sabe nada a respeito, os padas são reflexos das casas, sendo que dentre eles dois padas são especialmente importantes: o ārūḍha lagna, também chamado pada lagna e o upapada/gauna pada, reflexos das casas um e doze, respectivamente.


O ārūḍha lagna ajuda a determinar os resultados gerais da vida do indivíduo, sendo que os autores clássicos focaram-no especialmente na interpretação do sucesso do indivíduo (rāja yoga) e de suas condições financeiras (dhana yoga). Já o upapada lagna descreve o casamento, filhos e a longevidade da esposa.

Os demais padas, tais como putra, śatru, dāra, bhāgya, etc., são usados para determinar os temas correspondentes as casas das quais se originam.

Para os interessados, o conteúdo do curso será o seguinte:

1. Ārūḍha: definição e cálculo
2. Interpretação
            2.1. Ārūḍha lagna
            2.2. Upapada lagna
            2.3. Putra pada
            2.4. Dāra pada
            2.5. Bhāgya pada
            2.6. Outros padas
            2.7. Relacionando padas
3. Considerações adicionais
4. Exemplos práticos

As aulas serão ministradas via GoToMeeting, gravadas em áudio (ou seja, quem não puder comparecer poderá ouvir as gravações posteriormente) e incluirão PDFs para acompanhamento e estudo posterior. Os interessados devem me contatar via email (jyotishabr@gmail.com) e reservar suas vagas até no máximo o dia 10 de agosto, depositando o valor correspondente ao curso que é de R$ 350,00.

A data das aulas ainda será definida, pois espero poder arranjar dois dias que sejam possíveis a todos, ainda no mês de agosto.


Om tat sat

domingo, 11 de junho de 2017

Os bhāva yogas de Mantreśvara

Quando uma casa conta com a influência de um benéfico e o seu senhor ocupa uma boa casa em seu domicílio, mūlatrikoṇa ou exaltação, estando livre de combustão, os seguintes yogas se formam, partindo do lagna até a décima segunda casa: (1) chāmara yoga, (2) dhenu yoga, (3) śaurya yoga, (4) jaladhi yoga, (5) chāttra yoga, (6) astra yoga, (7) kāma yoga, (8) astra yoga, (9) bhāgya yoga, (10) khyāti yoga, (11) pārijāta yoga e (12) musala yoga. Em outras palavras, tais yogas implicam na plenitude dos resultados de uma determinada casa. 

O contrário, isso é, a aflição de uma casa por um maléfico, enquanto o seu senhor, enfraquecido, ocupa um dusthāna (6, 8 ou 12) indicará os seguintes yogas, do lagna à doze: (1) ava yoga, (2) nisḥva yoga, (3) mṛti yoga, (4) kuhū yoga, (5) pāmara yoga, (6) harṣa yoga, (7) duṣkṛti yoga, (8) sarala yoga, (9) nirbhāgya yoga, (10) duryoga, (11) daridra yoga e (12) vimala yoga.

A compreensão dos resultados de cada um desses yogas depende do conhecimento de seus termos e também do que é dito por Mantreśvara nos versos 44-69 do sexto capítulo da Phaladīpikā.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Grandes personalidades e os mahāpuruṣa yogas

Dentre os vários yogas descritos nos textos de jyotiṣa, há um grupo que ganhou grande importância: o dos mahāpuruṣa yogas. A palavra por si só já é bastante significativa, pois se refere a uma grande (mahā) personalidade (purūṣa), alguém cujo destino é singular e que possui no corpo certas marcas (lakṣanas) que a distinguem dos demais.

Em seu Bṛhat Parāśara horā śāstra, o sábio Parāśara define os mahāpuruṣa yogas da seguinte forma (75.1-2):

"...quando Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, ocupando seu domicílio (svakṣetra), mūlatrikoṇa ou signo de exaltação (uccha), estiverem simultaneamente em uma casa angular (kendra; 1-4-7-10) a partir do ascendente (ou da Lua), isso dará origem a ruchaka, bhadra, haṁsa, malavya e ṣaṣa yoga, respectivamente. Esses yogas são chamados de pancha mahāpuruṣa yogas e as pessoas que nascem sob tais yogas tornam-se grandes personalidades".

Mantreśvara, Kalyāna, Vaidyanātha e tantos outros autores importantes também incluíram os pancha mahāpuruṣa yogas em seus textos. Mantreśvara, na Phaladīpikā, abre o capítulo de yogas justamente com os pancha mahāpuruṣa yogas, enquanto Kalyāna dedicou um capítulo inteiro a discutir a força dos elementos, guṇas e dos mahāpuruṣa yogas. Isso nos dá uma idéia da importância desses yogas na tradição do jyotiṣa.

Se analisamos com mais cuidado a formação desses yogas, não é a toa que foram tão enfatizados. Em primeiro lugar, envolvem cada um dos pancha tāra grahas[1] (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno) detendo força e em segundo lugar, eles devem estar dispostos nos kendras, as casas angulares (a partir do ascendente ou da Lua natal), definidas por Parāśara como as mais fortes dentre todas as casas do mapa. Isso por si só já faz de tais posicionamentos louváveis.

Quando um graha se situa em um kendra ele obtém o chamado kendrādi bala, um tipo específico de força que destaca os seus efeitos quando comparado com os efeitos de um graha em casa sucedente (2-5-8-11) ou cadente (3-6-9-12). Há várias evidências de como um graha em casa angular possui uma força destacada e capaz de predominar sobre os outros aspectos do mapa. Por exemplo, quando há certos yogas de morte precoce presentes no mapa, um graha benéfico em kendra detendo força é suficiente para mitigar os males de tais yogas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

I. Como interpretar os nodos: Rāhu

Além dos sete grahas visíveis, Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, o jyotiṣa também leva em conta nas análises os nodos lunares, Rāhu e Ketu. Nesse artigo vou explicar como interpretar Rāhu, especificamente:

(1) Parāśara diz que a aparência de Rāhu é enfumaçada, horripilante e sua compleição é azulada, o que nos remete a um ser espectral e fantasmagórico. Essas características contribuem com a inconsistência dos resultados de Rāhu, o qual cria expectativas que se desvanecem no ar, trazendo desilusões, experiências amargas e choques onde está situado e em relação aos grahas que afeta no mapa. Nota-se distorção, irregularidade e até mesmo perversão naquilo que ele influencia. No entanto, superficialmente, Rāhu pode aparentar uma pura e nobre intenção, assim como vemos entre homens que se dizem santos, mas na sua intimidade agem de forma completamente contrária a isso.

(2) O ahaṃkāra, isso é, a noção errônea sobre quem sou, está relacionado a Rāhu, o qual eclipsa a percepção do verdadeiro eu (Sol). A orientação de Rāhu é suspeita, pois sempre busca atalhos para conseguir o que quer, além de enxergar as coisas sobre um prisma competitivo e egoísta. Onde está posicionado no mapa, é onde estamos mais sujeitos as armadilhas do egoísmo, a sede por prestígio e por privilégios mais amplos do que realmente merecemos. Rāhu é faminto, insatisfeito, inconseqüente e capaz de distorcer as coisas simplesmente para alimentar as suas próprias ilusões sobre como as coisas devem ser. Definitivamente, Rāhu não se interessa pela realidade, pois ela implica em sacrifícios os quais ele não está disposto a realizar, tal como é representado em seu mito. Isso faz com que as conquistas de Rāhu sejam súbitas, aceleradas, mas também efêmeras e com grande tendência ao desastre, ao menos na maior parte das vezes. Devido a isso, é dito que durante a sua mahādaśā (período maior), todos os bons efeitos conquistados tendem a se esvair na última parte do seu período.

domingo, 20 de novembro de 2016

Ego e falso ego, a diferença entre ambos e onde estão no mapa

Muitas pessoas tem dificuldade de determinar ao certo o que seria o ego. Em geral, é predominante uma concepção negativa do mesmo, no entanto, o ego em si não é um problema, pois o verdadeiro ego é a ātmā (a alma), o princípio consciente e eterno, sem o qual a existência seria impossível. Uma pessoa que se identifica com a ātmā é uma pessoa liberada/auto-realizada (mukta-puruṣa), ou seja, que conhece verdadeiramente a si mesma.

Portanto, o verdadeiro problema não é o ego, mas sim o falso-ego, chamado dentro da filosofia védica de ahaṃkāra, cujo significado é 'eu faço/ajo'. O ahaṃkāra é a idéia equivocada de que eu sou este corpo e tudo o que ele compreende, como os sentidos, a mente e o intelecto. Quem se absorve no ahaṃkāra é a baddha-jīva (a alma condicionada), a qual desenvolve sintomas de apego corpóreo, ignorância, egoísmo e um caráter explorador. 

O ahaṃkāra eclipsa a nossa percepção da ātmā através da ideia de que eu sou o ator e o controlador da vida que experimento. Trata-se de um estado confuso e torpe de consciência. Ou seja, invés do indivíduo se identificar com a consciência impassível, eterna e bem-aventurada proveniente da ātmā, ele se absorve na finita trama corpórea com todas as transformações que essa compreende e que lhe causam diferentes tipos de apreensão.